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Guilherme, 5 meses: nossas primeiras separações

24 março, 2015, Paula Saretta Momento Mãe 1


Guilherme, 5 meses: nossas primeiras separações

POR Paula Saretta*

Filho, faz um tempo que não escrevo para você. Como você já deve ter percebido, estou começando a dividir a minha atenção em você com livros, textos, algumas saídas, etc.

Como é difícil quando é com a gente, não é?! Já tinha escrito sobre essas primeiras separações, já aconselhei amigas e quantas vezes pensei sobre isso de um modo mais resolutivo… “Guilherme vai para a escola meio período quando eu voltar a trabalhar” – dizia para quem perguntasse, sem titubear. Sem parecer um dilema tão difícil.

Mas, aí… Mas, agora… Mas, mas… Não quero e não me sinto pronta para decidir sobre isso assim… Tão rápido… Bem agora que o melhor da festa começou. Injusto isso. Mais do que injusto, chega a ser cruel com mães (ou quem for o cuidador principal) e bebês tão pequenos.

Lógico que outras pessoas podem cuidar de você com amor e dedicação. Não tenho dúvidas disso. Sempre defendi que bebês que vivenciam experiências seguras (afetivamente falando) nos seus primeiros meses de vida, são potencialmente mais competentes para lidarem com pequenas separações, imprevistos, mudanças, etc.

Daí… Entre pensar daqui e dali… Fiquei imaginando ter que descrever sua rotina para outra cuidadora, alguém que fosse cuidar de você, mas que você ainda não conhecesse. Acho que não saberia fazer isso neste momento. Saberia até dizer dos momentos que você cochila e mama… Mas como descreveria as nossas trocas de olhares que acalmam e fazem você dormir? Como falaria dos seus diferentes sorrisos e de como você gosta de brincar com meu rosto e minhas mãos? Como contar para alguém das nossas sutilezas cotidianas, dos gestos cúmplices, de como estamos cada vez mais conectados… Sei de você e você sabe de mim. Como explicar isso numa lista de recomendações?

Desde que você nasceu, segui, com muito prazer e satisfação, minhas premissas, minhas convicções teóricas e percebi, também com muita alegria, que na prática a teoria não é outra, coisíssima nenhuma! Não é! A teoria embasa a prática e juntas, sem separação, formam um lindo modus operandi ou a práxis como fala Paulo Freire.

A título de brincadeira apenas, fiquei aqui pensando numa lista de recomendações para um outro cuidador que seguisse a mesma linha de pensamento que tenho seguido com você, filho. Foi engraçado pensar nisso quando conversava com uma amiga. Seria algo mais ou menos assim:

“Cara Cuidadora,

Guilherme mama quando quer, tem dias que está com mais fome e tem dias que parece que está mais sonolento e mama menos. Ele tem um choro irritado quando está com fome, bem fácil de perceber. Tem dias que ele cochila a cada mamada, mas tem dias que ele está bastante desperto e ativo. Ele dorme fácil normalmente, mas precisa estar seguro e, de preferência, em contato visual com você para que isso aconteça sem medo.

Tem dias que ele adora brincar no tapete de atividades do chão, mas tem momentos que ele parece bem incomodado em brincar “sozinho”. Nestes momentos de recusa, ouvimos música às vezes… Não qualquer uma, tem algumas que ele gosta, outras ele parece nem prestar atenção. Depois te passo uma lista com as preferidas dele. Evite ligar a televisão perto dele. Ligo raramente porque quero que ele se concentre em suas descobertas. Nem música enquanto ele brinca… Música boa é algo que deve ser apreciado, sentido, vivenciado… Não é para ficar de fundo numa brincadeira. 

Tem dias também que ele se irrita com alguns brinquedos porque não consegue morder (ah! ele tem dentes desde os 3 meses e quer morder tudo). Quando ele se irritar, é preciso esperar um pouco para ver se ele resolve sozinho o “problema” e logo descarta o brinquedo… Ou se temos que tirar de perto e rearranjar o ambiente para que ele não se irrite ainda mais.

Favor não esquecer de respeitar não só seus interesses, mas também o que ele não se interessa em fazer, brincar, olhar… Se esforce para variar as atividades e as oportunidades de interações ao longo do dia. Isso não significa que você precisa oferecer muitos estímulos… Variar não significa oferecer cada hora um estímulo novo… Pelo contrário, o bom é quando ele se concentra em poucas coisas e parece traçar uma meta e ir atrás dela.

Sua grande função é encorajá-lo com seu olhar enquanto ele descobre o mundo… E organizar a vida dele. O espaço de brincar com materiais adequados, que possibilitem liberdade de movimento e livre imaginação, por exemplo… Pode reparar que não gosto muito de brinquedos que já vem “prontos”. O bom brinquedo é aquele que não é exatamente um brinquedo… Depois explico com calma para você.

Guilherme acabou de completar 5 meses, agora ele está na fase de querer virar de bruços e logo começará a segurar o tronco como se quisesse se arrastar… Você vai ver que graça! E quando for assim, você não precisa intervir de imediato se ele estiver tranquilo e parecer concentrado no movimento. É importante que ele repita o movimento quantas vezes quiser. Esse “treino” é fundamental para ele ir aprimorando seus movimentos e descobrindo as potencialidades de seu corpo… Mas isso pode acontecer em momentos diferentes do dia. Não necessariamente na sequência da brincadeira. É “só” ficar atenta e registrar se preferir.

Seria bom também que cada ação relacionada aos cuidados corporais, trocar a fralda, oferecer a mamadeira, troca suas roupas, fosse cuidadosamente planejada. Ofereça a mamadeira se e quando ele quiser. Se ele estiver chorando ou se recusando, não insista. Respeite o tempo dele. Deixa que ele se acalme primeiro e depois converse com ele, olhe nos seus olhos com calma, etc. para continuar a ação. Os momentos de cuidados corporais são preciosos e fundamentais na relação adulto-bebê. Se não for pedir muito, queria também que você explicasse as suas intenções e conversasse com ele nos momentos dos cuidados, contando um pouco do que vai acontecer, ouvindo o que ele está comunicando, esperando suas respostas… É, ele ainda não fala, mas suas respostas vão aparecer em seu corpo, seu olhar, seus gritinhos animados, etc.

Ah! Já ia me esquecendo… Quando ele chorar, espere a reação inicial dele, não se precipite em logo tentar cessar seu choro com uma chupeta, uma mamadeira ou dizendo que não foi nada… Espere um pouco. Tente entender seus pedidos de socorro, sua comunicação. Seja um parceiro participativo e sensível para ele, assim ele vai entender o mundo de modo mais seguro e tranquilo e ficará em harmonia com seu entorno e com ele mesmo.

Agradeço antecipadamente,

Paula”

Filho, como disse antes, essa carta seria uma brincadeira. Uma brincadeira para dizer que, neste momento, o prazer de estar com você é todo meu. Não estamos prontos para longas separações ainda.

Escrever sobre isso reafirma o que para mim está, na verdade, decidido. Estar com você, de certa forma, é parte do que amo fazer, estudar, pesquisar, por isso já pensei e repensei possibilidades. Estou encontrando ótimas saídas, filho. Os meus novos caminhos profissionais também incluem você. Como não podia deixar de ser.

Você é o caminho. Você já me transformou. A prioridade é você agora, filho. Vamos em frente? Cada mês é uma surpresa nova. Quem sabe no próximo mês já temos as novidades transformadoras para contar para todo mundo, não é?! Sigamos. Sigamos, filho.

De sua mãe, Paula.

 * Paula Saretta é psicóloga. Doutora em Educação pela Unicamp. Mestre em Psicologia Escolar pela PUC-Campinas e aperfeiçoada em Queixa Escolar pela USP. Formadora de professores e consultora em Educação e Psicologia. Fundadora do site/blog Ouvindo Crianças.

  • Marina Borges e Silva Prado

    Sem nem ser mãe, me emociono muito com suas cartas para o Guilherme!