Momento Mãe

  • Acompanhe

Filha, tá tudo bem? POR Luciana Pimenta

4 fevereiro, 2015, Paula Saretta Momento Mãe 3


Filha, tá tudo bem? POR Luciana Pimenta

Filha, tá tudo bem?

Não. Não estava. E eu sabia que não estava, mas não sabia exatamente o que não estava bem. E também não sabia como saber o que exatamente não estava bem.

Ok. Eu sabia que não era assim um problema gigantesco. Mas qualquer diferença no humor ou no modo de agir é o fim do mundo quando a gente é mãe.

Ok de novo. Sou um tanto quanto dramática. Mas me dou o direito. Afinal, sou mãe. E pai.

Minha filha tem 7 anos e é minha companheirinha. Pelo menos, assim eu a considero. Mas quando eu tinha 7 anos, ou 10 ou 15, eu não considerava minha mãe a minha “companheirinha”. Aliás, quem usaria esta palavra? Não eu. Não antes de eu ser mãe, pelo menos. Acho que não a considerava nem minha amiga. Sempre tive medo ou vergonha (ou os dois) de conversar com ela. Acho que até hoje, aos 35 anos de idade, alguns assuntos são melhores quando não ditos quando estou ao lado dela.

O fato é que eu sempre fui ciente disso, e, desde que minha pequena nasceu, tive essa coisa de “devo me esforçar para ser amiga dela”. Converso bastante sobre tudo, sobre todos, sobre várias coisas. Tento falar das coisas que nem mesmo dizem respeito à ela (como acontecimentos do meu trabalho, por exemplo), exatamente para que ela também se sinta à vontade de falar comigo sobre tudo, sobre todos, e, especialmente, sobre aquilo que ela vai julgar que não diz respeito à mim.

Eu não sei se funciona. Mas é assim que eu tento. Na verdade, eu nunca sei o que funciona ou não. Mas tento o que eu acho que é melhor. E, na falta de um pai para conversar, discutir e decidir, acabo agindo por mim mesma, que não sou nenhuma super-heroína. Sou apenas mãe.

E uma vez eu ouvi de uma amiga, que não é mãe, a frase que mais me definiu até hoje: ser mãe é sempre sentir-se culpada por tudo.

Sempre perguntar-se “e se…”. Sempre. E nunca ter a resposta. Nunca mesmo. E a cada dia, a cada nova atitude dos pequenos que agora estão ficando grande (meu Deus!, ela está ficando grande!), as dúvidas vão crescendo e se embaralhando dentro da mente da gente. É um quase-loucura a cada minuto.

Moramos num condomínio com bastante criança. Três delas são as novas melhores amigas para sempre da minha filha. Hoje ela desceu para brincar com as amiguinhas, mas, rápido demais, subiu de volta.

“A gente tava brincando, e eu abri a portinha da carruagem da Barbie da Izabel, mas eu não sabia que não podia abrir, e eu acho que quebrou, e ela ficou um pouco brava comigo, por isso eu vim embora.”

Perguntei se tinha realmente quebrado, e até liguei para a mãe da guria para saber o que tinha acontecido. Não tinha acontecido nada. A mãe (muito simpática) disse que estava tudo em ordem.

Fiquei mais tranquila. Mas não era só isso. Alguma outra coisa fez a minha princesa perder o brilho nos olhos. Como se a portinha da carruagem da vida dela tivesse se quebrado. Não. Na verdade, eu não fiquei mais tranquila não. Eu queria entrar dentro da cabecinha dela e descobrir exatamente tudo que foi dito ou feito, e tirar satisfação com quem quer que fosse que deixou minha filhotinha triste.

Perguntei a ela. Ela disse que não tinha acontecido nada. Que estava tudo bem. Mas de alguma forma, eu sabia que não estava não. Perguntei de novo, e de novo, e de todas as formas possíveis, e porque ela tinha ficado chateada, e se alguém brigou com ela, e se alguém falou alguma coisa que ela não gostou, e se ela fez alguma coisa que ela achava que era errado e porque diabos de repente ela não queria descer mais para brincar.

Ela optou por não falar.

Contei a ela que quando eu tinha 7 anos, eu não achava que a minha mãe era minha amiga. E não contava as coisas que aconteciam comigo para ela. E que eu, hoje, sinto falta disso. Que me arrependi. Que queria ter conversado mais.

Nem a minha história triste a comoveu. Ela simplesmente insistiu que não tinha acontecido nada.

E eu demorei para aceitar isso. Só aceitei, na verdade, quando me lembrei o quanto eu ficava chateada quando não queria contar alguma coisa para a minha mãe, e, mesmo assim, ela insistia. E foi justamente nesse momento que eu senti aquela dorzinha no coração. Aquele “e se…”. Aquela culpa.

Ela é igual eu era com minha mãe. E quem pode culpa-la por isso? E quem pode me culpar por isso?

No fim do dia, ela já estava brincando de novo com as melhores amigas. E eu continuo aqui inventando e colecionando mil perguntas.

_________________________

Luciana Pimenta é advogada, mãe, dona de casa, estudante, blogueira, mulher, curiosa e escritora. Assim ela se define, mas eu acrescento: mãe e pai da Giulia, de 7 anos, apaixonada pela filha, pelas palavras, amiga querida e profissional muito competente. 

Em sinal de agradecimento… 

Para você, Lú, uma poesia da Cora Coralina:

Assim eu vejo a vida – Cora Coralina (1889 – 1985)*
A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

* O poema acima, inédito em livro, foi publicado pelo jornal “Folha de São Paulo” — caderno “Folha Ilustrada”, edição de 04/07/2001. Do site http://www.releituras.com

 

  • Paula Saretta

    Que delícia de presente, querida Lu! Não vamos ficar somente nesse, né?! Eba!!!! beijos felizes e esperançosos pela nossa parceria 🙂

  • Binha Moura

    Esse relato me fez pensar bastante. Estou grávida de 6 meses de uma menina. Serei mãe e pai, também não tive um relacionamento amigável com minha mãe e meu maior desejo é ser amiga da minha filha. Meu maior medo é justamente essa distância que sei lá pq, acontece em muitas e muitas relações mãe e filha. Crio milhões de teorias sobre “como fazer dar certo”, mas só Deus é que sabe, pq, sempre vamos dar o nosso melhor e mesmo assim, o sentimento de culpa vai estar lá,rsrs.

  • Sheila Alvite

    Aprendi, após 8 anos, que amando transferimos todo o sentimento do bem aos nossos filhos e que aprendizagem faz parte do caminho deles, cada um terá sua própria experiência e isso definirá cada ser que nasce e se vai sozinho. Como mãe trata-se de um exercício diário, nosso amor é controlador e querer proteger é o nosso maior castigo. Que consigamos nos libertar das nossas feridas, amar simplesmente e demonstrar que viveremos eternamente pela felicidade dos nossos tesouros e amados filhos!