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Possibilitar o encontro entre mães e bebês: apenas um desabafo…

28 janeiro, 2015, Paula Saretta Momento Mãe 2


Possibilitar o encontro entre mães e bebês: apenas um desabafo…

POR Paula Saretta*

Guilherme, meu filho, nasceu há 3 meses. Há 3 meses vivo intensamente a maternidade. Sinto como se tivesse mudado de lado… Ou melhor, sinto como se tivesse encontrado meu verdadeiro lugar. Mas isso é outra conversa. O que quero dizer aqui, até em tom de desabafo, tem a seguinte defesa: é necessário encorajar as mães a serem o que elas quiserem/puderem/conseguirem ser!

Não acho que somos todas iguais. Não acho que existem respostas para tudo. Não acho que nenhum especialista saberá mais do que eu como acalentar ou fazer meu filho se acalmar. Não acho mesmo e sigo assim. Acredito, de verdade, que a maioria das mães não precisam de ninguém para dizer a elas o que fazer na maioria das situações do cotidiano.

Agora, no lugar de psicóloga, me refiro à outros tantos especialistas que trabalham e estudam a infância: precisamos dar voz às mães. Precisamos ajudá-las a encontrar seus caminhos e não dizer qual é o melhor para elas e seus bebês. Vou explicar o porquê do meu desabafo…

“Tenho vontade de colocá-lo em minha cama, mas não quero acostumá-lo mal. Alguém aí faz cama compartilhada?” ou “Deixei no berço e ele chorou. Meu marido não deixou ir lá pegá-lo e ele quis sair do berço e bateu com a cabeça na grade. Estou me sentindo a pior mãe do mundo”… E outra mãe perguntou ontem:   “Pessoal, o seu filho já fica de bruços?”

Estas foram perguntas/relatos das últimas 48 horas do Fórum de mães de bebês que nasceram exatamente na mesma época que o Guilherme, da qual faço parte. Ou seja, todos os bebês têm 3 meses e pouco… A maioria das respostas das mães eram no sentido de acolhimento umas com as outras e, por vezes, alguém contava sua experiência pessoal.

Mas quase sempre as respostas iam na direção de uma delas que copio aqui**: “O meu pediatra também mandou fazer isso [colocar o filho de bruços]… Mas ele chora toda vez que tento colocá-lo assim. Será que está atrasado? O que acham? Minha próxima consulta é só no mês que vem”.

Fiquei preocupada. Angustiada até. Não com o Guilherme que também chora quando é forçado a ficar numa posição que ele ainda não tem competência. Não por ele. Fiquei com muita vontade de falar tanta coisa para aquela mãe, mas não sabia nem por onde começar. Poderia perguntar a ela: por que colocá-lo numa posição que ele não consegue ficar? Por que deixá-lo chorar? Por exemplo…

Mas depois… Pensando bem, não poderia escrever em tom de “Por que (alguma coisa…)”, já que falar assim já sugeriria um julgamento de valor, do tipo certo e errado. Falar assim deixaria bem claro que discordo, mas também poderia colocá-la numa posição de constrangimento, de desrespeito. Ela poderia pensar: por que ela acha que sabe e eu não sei o que fazer? Por que ela acha que está certa? Por que ela acha que o pediatra está errado e ela certa? Etc.

Então, não disse nada. Mas me coloquei a pensar: será que a questão é só o fato de eu discordar do pediatra e ela o entender como uma figura inquestionável de conhecimento? Será que o pediatra tem ideia do que ele acaba fazendo com as mães? Será que ele imagina o peso do que fala, das dicas e sugestões que dá para todas as mães, todos os dias?

Pediatras, não me levem a mal, por favor. Respeito a profissão de vocês. Respeito o conhecimento de vocês. Mas, sinceramente, por que não encorajar as mães a se ouvirem, a se conhecerem, ao invés de dizer a elas o que devem fazer?

Explico: por que não ajudá-las a se sentirem capazes ou competentes para a maternidade? Todas podem. Todas sabem. Lógico que explicações científicas são importantes e fundamentais, não tenho dúvidas disso (esse também é o meu trabalho, aliás!), mas poderíamos tentar discursar em tom crítico-reflexivo. Escrever para fazer pensar. Dizer para fazer refletir.

Como sempre falo aqui, cada um deve tentar tirar suas próprias conclusões. Conhecer-se. Saber de si.

Não dá para simplesmente falar com regras óbvias (que só você não sabia!) e certeiras (faça assim que dará certo!). Nem com generalizações descabidas (todos os bebês gostam disso…). Nem com “teorias” sem fundamentação nenhuma (sempre se fez assim, só pode ser assim mesmo…). Ou, pior, sem ao menos conhecer a mãe ou o pai que estão na sua frente. Você sabe o que eles querem, pensam, são?

Se isso é possível, não sei. Mas minha opinião, agora também como mãe, é muito simples: nos libertem! Nos ajudem, isso sim acredito, a sermos mães mais conectadas com nossos filhos. As respostas estão na nossa relação. No nosso dia-a-dia. Precisamos ouvir mais nossas vozes e tentar entender o que nossos filhos nos dizem. Mas precisamos também de segurança para que isso de fato aconteça.

Não conseguimos ouvir nossos bebês porque estamos tão preocupadas com as regras que nos são sugeridas… Com as receitas de como fazer.

Como ajudar as mães a se sentirem mais seguras e competentes? É disso que estou falando e não de aprisioná-las às regras que nem são questionadas… Pelo menos até a próxima consulta.

“O bebê precisa se acostumar com seu próprio berço logo que nasce” Ou, “o bebê precisa treinar posições para se desenvolver de forma adequada” Ou “o bebê não pode ficar no colo” Ou “deixar chorar é bom para se acostumar e criar bons hábitos”… Quem disse? Bons hábitos para quem? Para quem?

Quais as necessidades dos bebês? Quais as implicações de uma ou outra atitude? O que os estudos mais recentes sugerem? Só tem uma verdade? Uma teoria? Quais as linhas teóricas e qual você está se baseando para dizer isso?

Como vocês podem perceber, existem métodos que não compartilho, como, por exemplo, deixar os bebês em posições que ainda não consigam ficar por conta própria. Só para citar o dilema da mãe que usei aqui de exemplo. Mas, como já disse, cada um deve saber de si e de seu bebê. Porque no fim das contas, tudo isso não é sobre você e seu pediatra, tudo isso é entre você e seu bebê. É para ele que você deve satisfações e é com ele que você deve se acertar. O encontro é seu. É seu e dele.

__________

Uma última observação para as mães: se você não se olhar, não se ouvir e, principalmente, se conectar amorosamente com seu bebê… Todos os caminhos parecerão interessantes e possíveis. Porque são mesmo. Mas, qual é o seu? Questionem os especialistas. Questionem o que vocês leem, de onde vem as teorias, quem as elaborou, os estudos que estão por trás delas… Não há uma única verdade na ciência, assim como tudo na vida.

Procurem meios para sentirem-se seguras. Conversem com quem as façam pensar. E não com aqueles que “resolvem” magicamente por você. Ninguém sabe melhor que você. Como já disse: o encontro é entre você e seu bebê.

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**Pedi a permissão das mães do Fórum para colocar os relatos e perguntas, mesmo anonimamente.

*Paula Saretta é psicóloga. Doutora em Educação pela Unicamp. Mestre em Psicologia Escolar pela PUC-Campinas e aperfeiçoada em Queixa Escolar pela USP. Formadora de professores e consultora em Educação e Psicologia. Fundadora do site/blog Ouvindo Crianças.

  • FernandaSampaio

    Óptima reflexão!
    A minha primeira fonte de conhecimento foram sempre as mães com mais experiência, aliado ao bom-senso. E por fim, os manuais dos pediatras, que sinceramente, tanto adopto como descarto.

  • Áurea Maria Ferraz De Sousa Ro

    Nossa, como sou sua fã! Leitura gostosa…
    Acho que a questão vai além do âmbito materno, né Paula?
    É o que sempre aprendi com você: questione mais! Não há verdades absolutas, somos seres humanos únicos! Não há regras! Há o que te cabe, o que te faz bem… Mas acredito que aqui a insegurança deve falar muito alto no coração destas mães… Que seja você essa voz que elas precisam ouvir!
    Parabéns pelo texto!
    Bjos