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Você está criando crianças respeitosas e agradáveis?

7 janeiro, 2015, Paula Saretta Momento Psicóloga 9


Você está criando crianças respeitosas e agradáveis?

*POR Paula Saretta

“Que sorte que você tem, seu filho é muito bonzinho” ou “Você viu como a fulana não teve sorte, os dois filhos são impossíveis”. Pode até ser modo de dizer, mas por trás destas frases tão comuns, o que percebemos é uma visão inatista (nasceu assim e pronto…) e, principalmente, simplista em relação às complexidades da vida. Filho não é loteria! Como se alguns tivessem sorte, outros não…

Ninguém nasce bonzinho ou mauzinho. Ninguém nasce amoroso ou agressivo. Ter filhos respeitosos e moralmente bons não é uma questão de sorte. Precisamos de bons exemplos, de paciência e, principalmente, de grande investimento emocional para educar os filhos para serem o que desejamos.

Recentemente li um artigo de um blog americano que perguntava exatamente isso no título: “você está criando crianças agradáveis (ou respeitosas)?”. O texto editado pela jornalista Amy Joyce trata de um estudo desenvolvido pelo grupo de pesquisa de um psicólogo de Harvard chamado Richard Weissbourd.

Alguns pontos são bem interessantes nesta pesquisa. Um deles é que as crianças participantes disseram que os pais ficavam mais orgulhosos com seu desempenho escolar do que com suas atitudes e comportamentos considerados socialmente desejáveis, como ser generoso, ajudar o próximo, respeitar o espaço do outro, etc. Ou seja, mais uma vez assistimos uma maior valorização dos aspectos cognitivos em detrimento dos aspectos sócio-afetivos.

Mesmo não sendo adepta de textos que apontam “receitas” de como fazer algo, neste caso especifico, achei interessante as 5 maneiras de promover o desenvolvimento moral nas crianças. Vejam só (não fiz uma tradução literal do artigo, resumi alguns pontos e adaptei o texto com meus comentários). O link do texto original está aqui.

  1. Faça da noção de “cuidar/se preocupar com o outro” uma prioridade

Sabemos que as crianças precisam aprender a equilibrar as suas necessidades com as necessidades do outro e aprender a pensar coletivamente. Se incentivamos as crianças a se preocuparem com o bem estar coletivo, ou seja, se as ensinamos que suas atitudes impactam na vida do outro, teremos pessoas mais respeitosas de modo geral.

A grande questão aqui é incentivar ou estimular atitudes moralmente boas mesmo que seu filho saia prejudicado ou que a ação não lhe traga nenhum benefício direto. Vou explicar melhor usando um exemplo sugerido no texto que inspirou este nosso: seu filho quer deixar o time de futebol, por exemplo. Devemos incentivá-lo a considerar suas obrigações para com o grupo antes de simplesmente sair, pensando no melhor momento de deixar o time, explicando suas reais motivações, negociando o melhor momento de fazê-lo, etc. Desde situações simples, até situações mais complexas, devemos ensiná-lo a pensar no outro antes de tomar uma atitude.

  1. Proporcione oportunidades para a prática de carinho e gratidão

Nunca é tarde demais para se tornar uma pessoa moralmente boa, mas isso não vai acontecer se nada for feito. As crianças precisam praticar cuidados com os outros e expressar gratidão por aqueles que cuidam delas. Segundo a pesquisa, os estudos mostram que as pessoas que têm o hábito de expressar gratidão são mais propensas a serem generosas, compassivas e, consequentemente, mais felizes e saudáveis.

O que a pesquisa sugere é que atitudes de gratidão e carinho devem ser exercitadas com frequência. Diariamente aparecem oportunidades para isso. Assim, ter gratidão também é algo que se aprende e que, por sua vez, também devemos regularmente praticá-la.

  1. Expanda o círculo de preocupação/cuidado do seu filho

Se partirmos do principio que quase todas as crianças se preocupam com seus familiares e amigos mais próximos, o desafio sugerido no estudo é ajudar nossos filhos a aprenderem a se preocuparem com pessoas fora desse círculo familiar direto. Por exemplo, com o novo aluno da escola, alguém que não fala a sua língua, alguém que precisa de ajuda, etc.

As crianças precisam aprender a aumentar sua percepção de mundo, ouvindo atentamente e frequentando o seu círculo imediato, mas também entendendo que existem pessoas vulneráveis e que necessitam de cuidados especiais. Especialmente no nosso mundo mais global, as crianças precisam desenvolver uma preocupação para as pessoas que vivem em diferentes culturas e comunidades.

  1. Seja um modelo de moralidade e ética

Todos sabemos que as crianças aprendem valores éticos, observando as ações dos adultos que respeitam. Elas também aprendem valores por pensarem por meio de dilemas éticos junto com os adultos, por exemplo: “devo convidar um fulano para minha festa de aniversário se meu melhor amigo não gosta dele?”

Ser um modelo significa que precisamos praticar a honestidade, justiça e cuidar de nós mesmos. Mas isso não significa ser perfeito o tempo todo. Para que nossos filhos nos respeitem e confiem em nós, precisamos, como sugere o estudo, reconhecer nossos erros e falhas. Nós também precisamos respeitar o pensamento das crianças e ouvir às suas perspectivas, demonstrando-lhes como nós gostaríamos que eles agissem.

  1. Atue como um guia na gestão de sentimentos negativos

Muitas vezes, a capacidade de cuidar dos outros é dominado pela raiva, vergonha, inveja ou outros sentimentos negativos.  

Precisamos ensinar às crianças que todos os sentimentos são compreensíveis, mas algumas formas de lidar com eles não funcionam. As crianças precisam de nosso aprendizado para ajudar a lidar com esses sentimentos de forma produtiva.

Algumas sugestões apontadas no artigo original, adaptadas aqui:

  • Ao invés de dizer ao seu filho: “O que importa é que você esteja feliz”. Podemos dizer: “O mais importante é que você seja uma pessoa gentil e respeitosa”.
  • Certifique-se de que seus filhos sempre tratem os outros com respeito, mesmo quando está cansado, distraído ou com raiva.
  • Evite recompensar o seu filho para cada ato “obrigatório”, tais como tirar os pratos da mesa de jantar, por exemplo. Os prêmios ou compensações devem ser restritos para atos considerados incomuns de bondade.
  • Converse com seu filho sobre atitudes carinhosas e delicadas de pessoas no seu entorno para que ele entenda o que/no que você atribui valor.
  • Faça da gratidão um ritual diário na hora do jantar, hora de dormir, no carro, etc. Expresse palavras de agradecimento por todos aqueles que contribuem para o seu bem estar.
  • Certifique-se de seus filhos são simpáticos e gratos com todas as pessoas do seu entorno, tais como motorista de ônibus ou uma garçonete.
  • Use um artigo de jornal ou TV para incentivar seu filho a pensar sobre as dificuldades enfrentadas pelas crianças em outro país ou outras comunidades.
  • Dê ao seu filho um dilema ético no jantar ou pergunte sobre os dilemas que estão enfrentando e o ajude a refletir sobre isso.
  • Aqui está uma maneira simples de ensinar seus filhos a se acalmar: peça para respirar fundo pelo nariz e expirar pela boca e contar até cinco. Pratique essa técnica quando seu filho estiver calmo. Então, quando você perceber que ele ficou chateado ou nervoso, relembre os passos e faça com ele. Depois de um tempo ele vai começar a fazê-lo por conta própria para que possa expressar seus sentimentos de uma forma útil e adequada.

Acrescento mais uma:

  • Ensine seu filho a nomear e discriminar seus sentimentos. Converse sempre sobre o que eles estão sentindo, evitando julgamentos. Tente apenas descrever a situação ou conflito para que vocês pensem juntos em como resolver.

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*Paula Saretta é psicóloga. Doutora em Educação pela Unicamp. Mestre em Psicologia Escolar pela PUC-Campinas e aperfeiçoada em Queixa Escolar pela USP. Formadora de professores e consultora em Educação e Psicologia. Fundadora do site/blog Ouvindo Crianças.

  • Cristina Pomela

    Que delícia ler esse texto logo hoje que ouvi uma frase de uma pessoa que gosto tanto sobre a criação de uma criança! Fiquei tão decepcionada com o julgamento sobre a (falta) de influência que ela acha que temos na educação que não consegui nem continuar argumentando…Tenho absoluta certeza de que fazemos toda a diferença!!

  • Pingback: Você está criando crianças respeitosas e agradáveis? | Casa do Brincar()

  • https://www.facebook.com/daniiela.peixoto Daniela Peixoto

    texto sensacional ! acredito que eu esteja fazendo o certo com os meus filhos !

  • Atacadão De Embalagens Festas
  • Lilian Ramos

    Ótima matéria. Excelente texto.

  • Jagg Silva

    Muito importante, me fez enxergar coisas que havia esquecido !!!?

  • Renata Barrichelo

    Lindo texto, Paula!

  • Patricia Zahorcsak

    Bom texto, mas com uma ressalva: crianças não são só fruto do meio, possuem bagagem genética e histórica. Portanto, nascem, sim, com tendências, e uma é naturalmente mais calma, outra é agitada; outra é mais agressiva, outra mais sensível. Algumas requerem menos esforço para educar e aceitam suas orientações com mais facilidade do que outras. Algumas exigem um esforço triplicado dos pais. Dizer que as crianças não nascem ‘assim ou assado’ é julgar e desmerecer o esforço daqueles pais que tem um trabalho mais difícil pela frente antes de conseguir transformar seu filho em alguém gentil e educado. Ah, e eu disse herança genética E histórica baseada neste estudo: http://elastica.abril.com.br/os-filhos-do-holocausto-ainda-tem-traumas-no-dna.

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