Dicas de livros infantis

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O amor e a cumplicidade entre avós e netos

25 julho, 2014, Paula Saretta Dicas de livros infantis 6


O amor e a cumplicidade entre avós e netos

*POR Paula Saretta

Não sei como foi/é com vocês… Mas sinto um enorme privilégio por ter tido avós participativos, queridos, carinhosos e amorosos.

Sinto uma imensa gratidão e alegria ao pensar na minha infância com meus avós por perto. Já escrevi uma vez o quanto sinceramente lamento que os encontros entre as diferentes gerações aconteçam, tantas vezes, de modo tão breve. Mas, como disse, acreditmenina_ninao em sua intensidade, acredito no modo como esse amor entre avós e netos pode ser extremamente marcante e significativo para a constituição de um outro ser humano.

Uma criança conhecendo o mundo, vivenciando tudo pela primeira vez e, do outro lado, uma pessoa experiente, com histórias incríveis para contar, com teorias consolidadas sobre a vida humana, com marcas profundas e cicatrizes emocionais para dividir…

“Não vou ser uma avó do tipo que acha que seus netinhos são os melhores do mundo. E não quero me gabar, mas estive reparando no jeito que a Nina tem, no que jeito que a Nina olha, no que jeito que ela se move, e posso dizer, sem susto: Menina Nina é a menina mais sensível e inteligente que já vi na minha vida”. Vovó Vivi –  que modesta! – quando fez tal descoberta de forma tão decidida, não explicou que a Nina tinha três meses de vida”.  

LIVRO: “Menina Nina”, de autoria e ilustração de Ziraldo, da editora Melhoramentos.

Essa frase é de um dos livros que mais me emocionam sobre a relação entre avós e netos. O livro autobiográfico do Ziraldo, trata de parte da história de sua neta primogênita Nina, e de sua esposa, Vivi. A narrativa é comovente por diversas razões. Primeiro porque começa com encantamento da avó Vivi pela sua neta Nina, da descoberta do amor entre as duas, da magia que existe entre avós e netos que se olham e se reconhecem no amor e na cumplicidade.

Sim, tem coisas que só são permitidas entre avós e netos. Um colo demorado, uma comida fora de hora, um segredo de algo não permitido, um mimo a mais, uma leveza… Uma graça que só os avós têm!

Logo depois, a narrativa muda de rumo, a morte inesperada da avó Vivi deixa Nina não só sem entender o que aconteceu, mas também se sentindo “traída” pelo modo como sua avó a deixou… A sensação da neta é de abandono, solidão e tristeza. Não há como não se identificar com essa parte do livro e sentir, junto com a Nina, uma imensa tristeza por aqueles que vão assim…Sem avisar, sem se despedir. Vão embora e nos deixam aqui, tentando entender o que aconteceu, tentando encontrar explicações racionais para uma dor imensa que sentimos.

Nossa tendência, nesses casos, é tentar encontrar algumas explicações racionais para confortar nossa dor, como: “foi melhor assim, pelo menos não houve sofrimento” ou “ela(ele) teve uma vida ótima e chegou sua hora”, etc. Mas a verdade mesmo, como questiona a Menina Nina é que sentimos falta daquilo que ainda nem vivemos. Ou seja, não sentimos falta apenas do que já aconteceu, mas sim do que imaginamos que poderia acontecer um dia… Dos planos que fizemos, do não vivido que planejamos com aqueles que se vão…

Assim como a Nina, também tive perdas semelhantes com minhas avós. Saber que não poderia mais contar emocionalmente com elas, que daquele momento em diante, não contaria mais sobre minha vida, meus planos, meu casamento, os bisnetos que chegariam, etc. foi algo tão triste e intenso como descreve a Menina Nina, de Ziraldo. Sinto falta de compartilhar minha vida, sempre sentirei. A foto de uma das minhas avós fica bem ao lado da minha cama. Uma foto em que ela está me abraçando com um dos braços e parece estar me dizendo algo ou, como sempre fazia, me ensinando alguma coisa. Olho para essa foto todos os dias e ainda me emociono. Ainda penso no que ela diria sobre os dilemas que vivo diariamente ou o quanto ficaria feliz com minhas conquistas. Lamento por ela não estar por perto já há tantos anos. Mas agora sem dor, sem raiva. Lamento por ser assim… Mas, como ensina o livro de Ziraldo, mais do lamentar, agradeço. Agradeço profundamente por ter tido a presença amorosa dela na minha vida. Agradeço por ela ser quem foi para mim. Sorte a minha!

Gosto de pensar que minhas avós estão em paz. A palavra PAZ tem um significado tão bonito e calmo, não é?! Como sugere Ziraldo para sua neta Nina, “pode ter certeza, Nina, a vovó está em paz”. Tenho certeza também que sim! Estão em paz e, as minhas estão aqui, dentro de mim para sempre.

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*Paula Saretta é psicóloga. Doutora em Educação pela Unicamp. Mestre em Psicologia Escolar pela PUC-Campinas e aperfeiçoada em Queixa Escolar pela USP. Formadora de professores e consultora em Educação e Psicologia. Fundadora do site/blog Ouvindo Crianças.