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Carta à uma mãe em espera

9 maio, 2014, Paula Saretta Momento Psicóloga 6


Carta à uma mãe em espera

*POR Paula Saretta

Hoje é comemorado o dia das mães, apesar de ser uma data comercial, você, futura mãe que espera seu bebê, muito provavelmente ficará um pouco mexida com esse dia. Por isso nós, mães mais experientes, pensamos em escrever essa carta para você.

Muitas mulheres não serão mães, seja por escolha pessoal, seja pelo modo como a vida foi se encaminhando. No entanto, todas, absolutamente todas aquelas que tiverem um filho, desejado ou não, devem saber do tamanho de sua responsabilidade. Assim como a grande maioria das mulheres que engravidam, nós também passamos por milhões de sentimentos confusos quando pensávamos se estávamos ou não preparados para assumir tamanha incumbência.

Preocupações diversas que, depois do nascimento, se transformaram em alguns arrependimentos ou, melhor dizendo, se transformaram em grandes aprendizagens e possibilidades de crescimento. Da escolha do parto até o modo como educamos nossos filhos cotidianamente, vamos nos deparando com dilemas profundos, de quem somos nós, de como encaramos algumas frustrações e como administramos sentimentos tão intensos.

Não… não pense você que ser mãe só terá alegrias… Também não pense você que resolverá nenhum dos seus problemas. Muito pelo contrário, achamos inclusive que eles ficarão ainda mais evidenciados. Achamos mesmo que eles todos ficarão escancarados! Você vai descobrir inseguranças e incertezas que nem mesmo sabia que faziam parte de você. Suas prioridades vão mudar. Seu modo de enxergar a vida, muito provavelmente, também. Uma mulher não-mãe quando conversar com você talvez não entenda muito bem isso. Achamos mesmo que somente a experiência a fará entender o que estamos tentando dizer.

A maternidade é construída todos os dias. Ninguém nasce mãe, ninguém sabe tudo. Você vai aprender que não consegue controlar tudo, muito menos os desejos ou o modo como seu filho vai se inserir no mundo.

Ao contrário do que muitos dizem, as mães não são todas iguais. Simplesmente porque ninguém tem as mesmas experiências de vida, as mesmas vivências e encaram a vida do mesmo modo. Somos todas resultados das nossas histórias de vida e do nosso tempo histórico e social. Todas nós temos nossas questões particulares. Mas, mesmo assim, o que podemos dizer que nos parece comum a todas, é que nossas limitações e inexperiências como mãe iniciante nos fizeram crescer muito como pessoa, como mulher, como mãe.

Mãe de primeira viagem, você quer conselhos concretos? Ok! Podemos listar alguns deles aqui. O que faríamos diferente, se pudéssemos voltar no tempo? Em 10 tópicos:

1)    Deixar de curtir o bebê por conta de preocupações desnecessárias (que no momento pareciam essenciais!)

2)    Deixar de confiar na nossa própria intuição. Ou seja, deixar de perceber e acreditar na sua própria capacidade, na sua competência para cuidar e educar meu filho como você gostaria.

3)    Deixar de dedicar mais tempo às primeiras conquistas, por insegurança de estar sozinha com o bebê ou mesmo por questões de trabalho.

4)    Achar que amor e consumo estão vinculados. E, depois de tudo, aprender realmente qual verdadeiro valor das coisas.

5)    Deixar de se cuidar como mulher, como esposa e amiga. Esquecendo que ser mãe é uma parte importante de nós, mas não a única.

6)    Deixar de acolher nosso filho(a) e dar colo quando necessário, com a justificativa de que  estávamos educando corretamente e colocando limites considerados “adequados”.

7)    Deixar de “ouvir” as reais necessidades emocionais do nosso filho(a) pequeno.

8)    Exagerar nos cuidados e superproteção, deixando de sair de casa para passear e relaxar um pouco.

9)    Dar menos explicações e mais acolhimento no momento de frustração ou de dor. Ah! Se soubéssemos o quanto tudo passa tão rápido para tantas explicações e brigas desnecessárias…

10) Ter menos rigidez com horários, ser mais flexível e relaxar mais nos cuidados da rotina.

Poderíamos dizer mais coisas, poderíamos explicar detalhadamente cada um dos tópicos, além dos motivos pelos quais cada uma de nós entendeu essas questões como dilemas no momento em que aconteceram. Poderíamos sim. Mas de nada adiantaria. Não sabemos se serão essas as suas questões. Não sabemos como você irá reagir diante dos desafios que a maternidade irá lhe impor.

Não existem livros, nem manuais certeiros, mas tem algo que é importante, sim: cuide de você! Parece um conselho simples, mas talvez seja o mais complexo que poderíamos lhe oferecer. Uma dica preciosa: cuide do modo você lida com seus sentimentos.

Faça o seguinte exercício: pense que como você vai emprestar seus olhos a ele(a) por um tempo importante da vida dele(a), trate de pensar a respeito da sua presença no mundo; seus medos, suas percepções, seu modo de enxergar a vida, o que pensa sobre educação, sobre as crianças, a infância, etc.

Com olhos apurados e sensíveis, certamente você irá apresentar a ele(a) um lugar interessante de se viver, um lugar colorido, cheio de possibilidades, de perspectivas, de escolhas agradáveis, etc.. Confie em você.

Uma última dica: não se prenda à palavra “arrependimento”, desculpe-se quando puder e dê colo a si mesma quando for necessário. E mesmo assim, acredite, não há nenhuma certeza de “sucesso” no final. Apenas a tranquilidade e a segurança de que estamos, arduamente, tentando acertar.

Ficou ainda mais preocupada? Esperava um guia de dicas acertadas de como fazer? Então, vamos dizer de uma única certeza que todas nós temos: ser mãe é uma experiência única e intensa. Nosso filho se torna, logo no primeiro olhar, nosso maior bem, nosso bem mais precioso. Incomparável a qualquer outra experiência. É ter a certeza, todos os dias, que faríamos tudo de novo só para sentir essa mesma emoção cada vez que os olhamos crescer… Ali, bem diante dos nossos olhos orgulhosos e plenos de amor.

Esperamos tê-la ajudado!

Assinado pelas mães mais experientes, Tatiana, Dani F., Dina, Juliana, Daniela M., Célia, Regina, Débora, Marisa, Mariana, Daniela, Lúcia e Camila.

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Agradeço imensamente às mães que me escreveram. Espero ter conseguido captar a essência nos relatos, a emoção de cada uma de vocês. Os depoimentos estão no post-convite: http://ouvindocriancas.com.br/2014/05/05/ser-mae-e-parte-ii/

* Paula Saretta é psicóloga. Doutora em Educação pela Unicamp. Mestre em Psicologia Escolar pela PUC-Campinas. Aperfeiçoada em Queixa Escolar pela USP. Formadora de professores e Consultora em Psicologia e Educação. Fundadora do site/blog Ouvindo Crianças.

 

  • dina saretta

    Paula,te amo muito,orgulho de ser sua mãe!!!!!!

  • Juliana

    Que lindo, Paulinha! Vc captou a essência dos sentimentos e transformou em sábias palavras!
    E um lindo dia das mães para vc!
    Beijos

  • Liliane

    Só agora li esse post e confeso estar mega emocionada!! Minha pequena está pra nascer na próxima semana e já me identifiquei muito com os sentimentos, vivências e medos expostos. Parabéns as mamães e a linda Paula pela sensibilidade e obrigada por dividir conosco algo tão profundo, pessoal e especial! Vcs acalentaram meu coração nesse momento angustiante e mágico! Bjos com carinho!! Lili

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Li, minha querida! Que lindo seu depoimento! Você certamente será uma mãe doce e especial, como você já é! Que a Luisa chegue com muita saúde e que vocês tenham momentos maravilhosos juntos. Obrigada você por ser assim tão querida! um beijo enorme e que venha a Luisa!!!