Momento Professora

  • Acompanhe

Educação numa perspectiva crítica: o que isso significa?

30 abril, 2014, Paula Saretta Momento Professora 3


Educação numa perspectiva crítica: o que isso significa?

Toda política educacional é reflexo do que ocorre na dimensão econômica, social e política de um país, num determinado momento histórico e social. Pensando assim, a construção do projeto político-pedagógico de uma instituição, depende das concepções ideológicas dos gestores e dos professores que lá atuam, uma vez que estas refletem sua visão do homem, do mundo, do tipo de compromisso político-ideológico que a instituição pretende e se propõe a assumir, certo?

No senso comum, a palavra “crítica” parece se referir a uma atitude de discordância ou de contestação. Talvez este conceito que se popularizou desta maneira tenha um sentido na própria etimologia da palavra, uma vez que vem da palavra grega krimein, que significa “quebrar”, “destruir”.

Pensar a educação a partir de uma perspectiva crítica parece ser uma necessidade que vem aparecendo cada vez mais em documentos oficiais, desde a educação infantil até o ensino superior. Termos como consciência crítica, espírito crítico, desenvolvimento da criticidade estão frequentemente associados à ideia de educação numa dimensão crítica, uma educação para a cidadania, com vistas à democracia.

Porém, nem sempre, na história da educação, estes termos apareceram com tamanha frequência. No meu trabalho de doutorado[1] investiguei com mais cautela os termos educação para cidadania e educação crítica, por exemplo. E o que parece inegável é que quando falamos de educação crítica, temos necessariamente que nos remeter a um dos pioneiros nesta linha de pensamento, Paulo Freire, brilhante educador e teórico brasileiro que nas décadas de 1960, 1970 e 1980 fez inquestionável história na educação do Brasil e no mundo com uma pedagogia libertadora e transformadora.

Segundo Lora (2005)[2], no prefácio de uma das obras de Paulo Freire, na Conferência de Ministros da Educação, ocorrida  na Venezuela, em 1971, uma ideia de educação libertadora e crítica era anunciada: “Toma corpo a ideia de uma educação libertadora que contribua para formar a consciência crítica” (p. 9).

Assim sendo, a dimensão crítica pode ser entendida a partir das ideias de Paulo Freire (ver, por exemplo, “Conscientização. Teoria e prática da libertação”. Uma introdução ao pensamento de Paulo Freire), que considera que o processo educativo deva possibilitar a mudança e o desenvolvimento de uma consciência que ele chama de “consciência ingênua para um outro tipo de pensamento”, ou “consciência crítica”. Esta mudança de maneira de pensar ocorre a partir da mediação do professor, quando ele trabalha incentivando, problematizando, auxiliando o aluno a refletir sobre sua realidade. A este processo de transformação de consciência ingênua para a consciência crítica ele chama de conscientização.

Não há possibilidade aqui de nos aprofundarmos neste termo “conscientização”, mas bem resumidamente, Paulo Freire entendia por consciência ingênua aquela em que a pessoa interpreta o mundo geralmente chegando a atribuir como causa dos problemas sociais, políticos, econômicos e até pessoais pensamentos e soluções imutáveis, rígidas, superficiais e “mágicas”. Já a consciência crítica possibilitaria ao aluno analisar profundamente sua realidade e refletir de maneira consistente, passível de transformações e modificações em sua maneira de entender e ver o mundo.

Nesse sentido, o papel do educador como problematizador seria de alguém que provoca a reflexão crítica dos educandos a partir dos conflitos que caracterizam as situações do cotidiano. Ou seja, a partir do conhecimento que o educador traz, o aluno vai tendo uma relação mais ampla, mais contextualizada do mundo em que vivemos. É a reflexão, nesta perspectiva, que fará com que o educando desenvolva a consciência crítica, a consciência de que ele pode intervir e tem a capacidade de participar na transformação das relações que julguem necessárias. Mais ainda, a consciência crítica faz com que o estudante perceba o caráter histórico, cultural, dialógico das relações sociais e de suas relações com a sociedade, condição essencial para uma participação mais ativa e transformadora na sociedade.

Pensamos que, uma vez que as crenças dos docentes estão implícitas nas suas atitudes, nas suas ações, professores que primam pela liberdade de pensar de seus alunos, por mostrar gosto, paixão pelo conhecimento, prazer em mobilizar-se diante de novos desafios, de trabalhar na direção da construção e não da mera transmissão de conhecimento, nos parecem caminhar na perspectiva da formação que defendemos aqui…

Um outro autor que pode contribuir para o debate, Perrenoud, ao pensar sobre o que significa educar para a cidadania (2002, p. 14)[3] afirma:

“Um sistema educativo não pode ser mais virtuoso do que a sociedade que lhe confere a sua legitimidade e os seus recursos. Se a nossa sociedade é individualista, se vivemos nela fechando os olhos às injustiças do mundo, tentando levar a melhor individualmente, é ilusório esperar que a escola cultive valores de solidariedade que a sociedade ignora ou ridiculariza quotidianamente na mídia, na vida política, nos estádios, nas empresas ou em casa”.

Vamos refletir juntos: como poderemos trabalhar respeito, tolerância e cooperação se o sistema educativo, tantas vezes, pratica a segregação, a humilhação, a competição? Seja nas pequenas ações do cotidiano ou em ações coletivas, por exemplo, no que defendemos no texto anterior sobre as datas comemorativas, por exemplo, vamos caminhando rumo à uma educação crítica e reflexiva… Muitas vezes com uma luta quase desleal com o que a sociedade valoriza ou prioriza, mas, sinceramente, não vejo outro caminho. Ou melhor, não vejo caminho mais promissor… Que caminhos vamos percorrer? Qual currículo vai nos orientar?

Acredito que somos nós que construímos o currículo da escola [4]. Sim! O currículo é construído todo o tempo no interior das instituições de ensino, na postura do professor, na sua fala, no respeito entre professor-aluno e nas relações que são criadas numa instituição de ensino.

O que vocês sugerem? O debate, como sempre, está aberto para quem quiser entrar.


[1] ANDRADE E SILVA, P.S. de. Memórias de formação do curso de Psicologia: elementos para uma análise crítica. Tese (doutorado). Campinas, SP: Universidade Estadual de Campinas, 2009, 231p.

[2] LORA, C. Apresentação. In: FREIRE, P. Conscientização. Teoria e prática da libertação. Uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. S. Paulo: Cortez e Moraes, 2005.

[3] PERRENOUD, P. A escola e aprendizagem da democracia. Porto, ASA Editores, 2002.

[4] Entendendo o currículo como muito mais do que a sequência de disciplinas ou somente o planejamento de estratégias de ensino. O currículo seria o resultado de uma discussão complexa e profunda com toda a equipe escolar para se chegar a um resultado demonstrado numa determinada estrutura curricular.