Dicas de livros infantis

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Por que a professora não gosta de mim?

18 março, 2014, Paula Saretta Dicas de livros infantis 33


Por que a professora não gosta de mim?

*POR Paula Saretta

Renato, 7 anos, frequentava o segundo ano de uma escola pública.

No início de Agosto, Renato foi encaminhado para atendimento psicológico, com mais 3 crianças, todos com queixas semelhantes vindas de diferentes escolas. O relatório escrito pela professora de Renato para encaminhamento constava: “Renato não interage com os colegas e comigo. Não se interessa por nada. Não faz as lições de casa, está sempre desanimado e cansado. O caderno dele está quase em branco. Os pais são analfabetos e não conseguem ajudar”.

Logo nos primeiros encontros, Renato referiu-se à relação conflituosa entre ele e sua professora. Além de alguns problemas na estrutura da escola, como, por exemplo, não ter parque ou uma quadra de esportes e nem espaços ao ar livre. Nos intervalos eles ficavam no refeitório com outras crianças de anos diferentes.

Em todos os seus desenhos e expressões verbais, o espaço escolar parecia sempre relacionado a punições, regras incompreendidas, comportamentos banidos, pouca possibilidade de interação, pouca possibilidade de ser ouvido e notado pelas pessoas na escola. Os sentimentos que permeavam suas falas eram sempre de inconformismo, revolta e tristeza por não saber como modificar aquela realidade… Ele dizia que a professora só pedia para que ele ficasse quieto e sentado. “Senta, Renato!”. “Quieto, Renato!”. “Depois você fala, Renato!” – era assim que ele descrevia seus desenhos quando era solicitado para contar o que havia feito.

Em um dos nossos encontros, utilizei o livro “Zoom”, do Istvan Banyai, ilustrador americano, editado pela Brinque-book no Brasil. O objetivo era discutir ‘novas formas de olhar’ para as relações e as pessoas que estão ao nosso redor. Depois de conhecermos as incríveis imagens que vão sendo descobertas página por página do livro, provoquei o Renato para pensar sobre diferentes modos que poderíamos “enxergar” suas questões emocionais.

Num certo momento durante a visualização do livro, perguntei: “o livro mostra formas diferentes de olharmos as imagens… E você, Renato, como gostaria de ser olhado?” Renato disse: “Só gostaria que ela [a professora] gostasse mais de mim e que me olhasse diferente!” Silenciou. Depois completou: ”Eu quero aprender, mas não consigo”….

A primeira vez que fui à escola de Renato, entrei na recepção e perguntei pela diretora. A diretora me recebeu um pouco apressada e quando disse quem estava representando na escola, ela logo pensou alto: “Renato Silva… Renato Silva… Não consigo lembrar qual criança você está falando. Deixa eu ver aqui se tem uma foto dele nos documentos” – Depois de ver a foto: “Mesmo com a foto, não me lembro não. Mas fique à vontade para andar pela escola para fazer suas observações”. Andei um pouco. A escola era pequena, logo foi horário do intervalo e as crianças saíram para o lanche. Visualizei Renato saindo de sua sala, andando sozinho, com uma bolacha nas mãos. Sentou-se em uma mesa e, ainda sozinho, começou a comer a bolacha. Sentei ao seu lado, ele abriu um sorriso, sem parecer surpreso de eu estar ali e ofereceu a bolacha. Recusei e agradeci. Comecei, aos poucos, perguntar se ele não iria brincar com os colegas depois que comesse. Ele só me olhou e fez um “não” com a cabeça. Ficamos ali por uns minutos. Ele me mostrou os colegas que já havia mencionado nas sessões, alguns que ele dizia gostar, outros que ele não gostava. Mas nenhum deles foi até o Renato enquanto estávamos ali. Logo depois, o sinal tocou e ele entrou para a sala com os demais colegas. Conversei com a professora para marcar um horário de reunião com os pais dele. Horário marcado, fui embora.

Dias depois, em reunião com a família do Renato e eu, a professora manifestou-se nervosa, depois que lhe contei parte do que Renato, com frequência, queixava-se nas sessões: “Tá bom! É verdade! Não consigo mais trabalhar com o Renato”. Ficou um pouco pensativa e disse, me olhando firme: “Desculpa, mas eu não sirvo pra trabalhar com ele. É melhor mudar mesmo de professora, trocar de sala, não sei…” A família me olhou apreensiva e com um ar de tristeza aparente. Não disseram nada. Pais analfabetos, também invisíveis, assim como Renato. Não tinha vez, muito menos voz. Fizemos um silêncio constrangedor. Minutos depois sugeri que terminássemos a reunião e que depois conversaria com a diretora para resolver a situação do Renato.

Não precisamos trocá-lo de sala. Não deu tempo. Coincidência ou não, pouco menos de um mês depois dessa reunião, o pai de Renato decidiu voltar com toda a família para sua cidade natal. Uma cidade no interior de São Paulo. Renato mudou de cidade, de período na escola, de professora, de amigos e, principalmente, de crença de que ele não era capaz de aprender.

A nova professora do Renato costumava elogiá-lo pelo capricho de seu novo caderno e sua vontade de aprender. Descreveu um menino alegre, cheio de energia. Disse que precisou colocá-lo em algumas aulas extras para alcançar a turma, mas mostrava-se animada com o rápido progresso dele. O último relatório que ela me enviou, no fim do ano, estava escrito: “Renato passou de ano. Irá para o 3o ano fazendo contas, lendo e escrevendo” e, principalmente, SONHANDO -completei, em silêncio, ao ler suas palavras.

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* Paula Saretta é psicóloga. Doutora em Educação pela Unicamp. Mestre em Psicologia Escolar pela PUC-Campinas. Aperfeiçoada em Queixa Escolar pela USP. Formadora de professores e Consultora em Psicologia e Educação. Fundadora do site/blog Ouvindo Crianças.

  • Debora Nogueira

    O que aconteceu com a professora que não deu conta de Renato?

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Não sei ao certo, Débora. Mas na época a professora continuou lecionando naquela sala até o final do ano…

  • Michele Pelles Pereira

    Surpreendente a sua doçura em contar um caso de uma criança indefesa e da falta de tato de adultos para com ela! Sabemos o quanto é difícil administrar uma sala e uma escola, mas lembrando que cada criança é única para nós as situações se organizam naturalmente! Triste saber que ainda existem muitos Renatos por aí, mas vamos fazendo a nossa parte de forma única e com o carinho de serem notadas, sempre! Beijoo minha querida e obrigada pelas sábias palavras!!

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Isso mesmo, Mi. Muito obrigada, querida pelo seu comentário e pelas palavras carinhosas de sempre. Um beijo enorme.

  • Zélia Rocha

    Tive um caso parecido, uma menina, disse que a professora era brava e não gostava de crianças, pedi a ela que levasse uma flor para professora e depois me contasse o que tinha acontecido, no outro dia ela levou a rosa pra professora, como agradecimento a professora lhe deu um beijinho, tudop mudou entre elas e a cada dia levava mais flores pra professora só pra ganhar um beinjinho de carinho, e tudo correu muito bem o ano letivo na qual passou de ano.

    • Carla Betta

      Que idéia genial! Parabéns!

      • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

        Obrigada, Carla! um beijo

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Zélia, que bom! Muito obrigada pelo seu comentário. um beijo.

  • Flávia Martins Rebouças

    Que lindo. Me emocionei, chorei. Mas fiquei triste de pensar que, se os pais de Renato não tivessem mudado de cidade, ele, talvez, jamais teria experimentado a alegria de ser elogiado, de crescer, de aprender e de sonhar. Rezo por um mundo mais equilibrado, onde as pessoas possam se dedicar ao que realmente gostar de fazer, onde possam exercer seus talentos. Podemos começar a construir isso estimulando os talentos de nossos filhos. Parabéns pelo blog, é maravilhoso!

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Muito obrigada, Flávia. Obrigada mesmo. um beijo grande.

  • Prof. Lucimar Leão Silveira

    Gostaria de ter um espaço longo para fazer uma análise e interpretação da situação e aproveitar a ocasião para provocar algum estudo, apresentar fundamentos teóricos e práticos, mas vou destacar: 1 – a situação coletiva e de espaço e condição física e material são passadas para uma dimensão individual; a condição da escola, dos pais, da professora e da diretora não se fecham no individual; 2 – Não há como falar em TURMA, SÉRIE tratando-se de educação e de ensino que são duas entidades absolutamente diferentes e com tratos particulares; 3 – só vou me referir à professora para indagar quais condições reais tem para o trato consigo mesma, com os seus alunos e com as famílias. 4 – Por fim: pais, famílias, escolas e seus profissionais (diretores, supervisores, orientadores, professores e equipe escolar) não fazem milagres precisam de condições reais para que possam atuar com êxito.

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Lucimar, muito obrigada pela sua análise e comentário. As condições institucionais são, sim, fundamentais. Assim como a postura, a reflexão constante sobre nosso papel como educadores. Um beijo e vamos em frente, sempre em luta.

  • Élcia

    Infelizmente, essa é a realidade de muitas escolas em nosso país.
    Não podemos pesar essa “culpa” exclusivamente sobre os ombros da professora. Eu pergunto: será que ela teve uma ótima formação profissional?
    Sabemos que o Ensino brasileiro está decaindo a cada ano, inclusive nas universidades. Pela fala da professora, ela não sabia mais o que fazer… Vejo nisso um pedido de socorro. Conheço profissionais cheios de boa vontade, mas sem recursos para investir em aprofundamentos em sua área de trabalho (que se dirá então da professora, desvalorizada social e financeiramente?)
    É lastimável essa situação.

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Concordo, Élcia. Em nenhum momento pensei em responsabilizar apenas a professora, mas sim contar um fato que nos fizesse refletir sobre nosso papel como professores, sobre as marcas que deixamos nos alunos… A professora se mostrou humana e disse de uma fragilidade sua, com todo direito. A questão é como entendemos e pensamos nessas questões tão complexas, não é?! É triste mesmo essa situação. Mas, como ensina nosso Mestre Paulo Freire, devemos pensar criticamente na situação da educação, das escolas. Muito obrigada pelo seu comentário. Um beijo e vamos seguir lutando.

  • Moisés Soares

    ai ai… o que estou vendo de comentários de quem vive no “mundo encantado”… quantos de vcs já entraram em escola para lecionar?

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Moisés, todas as professoras que se manifestaram aqui, entraram na escola e entram todos os dias. O modo como encaramos nosso trabalho, a postura profissional e a luta constante por melhores condições de trabalho são parte da nossa profissão, a meu ver. Se quiser conversar mais sobre isso, fico à disposição. Este espaço é para trocarmos histórias, ideias, impressões e sentimentos. Sinta-se à vontade, mas não se esqueça que o respeito pelas opiniões de todos serão sempre preservados. Quando falamos de “mundo encantado”, como você sugeriu, prefiro pensar a partir de Paulo Freire… Para ele, ser idealista ou utópico, não era buscar algo que nunca teria chance de ser realizado. Mas sim formar pessoas críticas e reflexivas, que saibam denunciar as injustiças de uma sociedade tantas vezes desumana e, ao mesmo tempo, ter sempre esperança em um novo mundo de transformações e de liberdade para todos.

  • Maria do Carmo

    Nós que estamos próximo a essa realidade deparamos muito com isso, pois pessoas precisam serem olhadas e reconhecidas assim como este aluno Renato, foram necessário incentivo para que ele torna-se reconhecido por ele mesmo e o importante o carinho de uma outra professora.

    Sou, Professora de desenvolvimento Infantil!

    m_karminha@hotmail.com

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Olá Maria do Carmo, não é fácil ser professora. Também não é fácil ser uma criança invisível, como tantas que estão nas salas de aula. Professores deixam marcas afetivas sempre, o nosso trabalho é fundamental e pode fazer grandes diferenças na vida das crianças. Um beijo e obrigada pelo seu comentário.

  • Gabriela Santtos

    Nossa, não falo ada pra professora de antes, Renato é uma criança como outras, não é por causa que ele é feio, negro, gordo,tagarela,que não capricha nos cadernos, sendo de qualquer jeito, a professora não podia fazer isso!
    #INJUSTIÇA

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      É, Gabriela. Isso de fato aconteceu…

  • NEUSA ALBIERI CROCO

    Realmente, a situação da escola pública é terrível!!!As escolas da prefeitura da minha cidade são muito boas, tanto no aspecto físico , apropriado por idade, com espaços para recreação, um ambiente parecido com uma escola particular! Qto ao aspecto pedagógico dá para perceber que os professores tem apoio, cursos e recursos para administrar suas aulas!!!Já faz 3 anos q estou aposentada de escola estadual, a qual deixa muito a desejar, elas tem recebido muito material pedagógico, sala de informática e outras tecnologias mas já não tem cursos para aprimoramento e utilização desse material q acaba ficando abandonado e o professor acaba só utilizando lousa e giz!!!
    Mas nada justifica o professor ¨desistir¨de um aluno.!!!Mas infelizmente tem muitos Renatos por aí!!!!

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Tem muitos Renatos por aí, sim. Infelizmente mesmo, Neuza. Temos muito o que fazer pela educação, pelas escolas. Professores e escolas podem, sim, fazer a diferença! Obrigada pelo seu comentário. um beijo

  • Marcia

    Infelizmente essa é uma triste realidade, onde o professor deve ter muita cautela para não deixar marcas negativa na vida de um aluno. Hoje, tem todo um contexto que contribui para esse professor não querer avançar; uma gestão ausente, falta de recursos e capacitações, pais omissos e crianças desinteressadas pelos estudos, etc. Nada justifica o que a professora fez, mas, quando a ajuda não vem, bate um desespero diante de tantos obstáculos.

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Certamente, Márcia. Concordo com você que as questões da educação básica, principalmente pública, são complexas e devem ser analisadas integralmente antes de qualquer julgamento. Muito obrigada pelo seu comentário. Um beijo

    • Anita Buenaga Cavalcante

      Ola´, me permitam participar dos comentários, uma vez que por experiencia vivenciei e tentei intervir em várias situações como a de Renato.Fi coordenadora pedagógica nos meus últimos 16 anos de Município do RJ, hoje estou aposentada e encontrei na psicanálise uma forma de ajudar um pouco mais estes pares tão significativos; o professor e alunos.
      A escola e seu emaranhado de relações ainda é um espaço culturalmente traumatizado, idealizado, pouco valorizado e resistente a mudanças.
      Os sujeitos de uma maneira geral são vistos por seus números baseados em pesquisas meritocráticas.O bom professor é o que ensina, o bom aluno é o que aprende…como se isto se desse por mágica. É preciso verificar que não só a criança “dá pistas” de que precisa de ajuda, a professora também solicita, assiná-la que não está bem e não encontra respaldo, alguém que a ouça e apoie. Quando muito consegue uma licença médica, baseada já em sintomas seriamente consolidados. É preciso pensar para além da questão postada; a professora não gosta de mim. e começarmos a nos questionar…quem gosta da professora? Estes pares precisam de atenção, afetos e intervenção cuidadosa, imediatamente.
      Menos Renatos, começam por uma professora feliz!

      • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

        Anita, muito obrigada pelo seu comentário! Concordo com você, os professores precisam sempre ser cuidados, sim!