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“Não ria do meu choro” – apelos que não são ouvidos

7 fevereiro, 2014, Paula Saretta Momento Psicóloga 17


“Não ria do meu choro” – apelos que não são ouvidos

*POR Paula Saretta

Recebi um vídeo muito curioso, de duas crianças em fase de adaptação escolar, uma chora sem parar e a outra, da mesma idade, a consola dizendo o quanto ele já cresceu e não deve chorar porque “já é um homem”. O “homem” de 4 anos (ou menos!) continua a chorar mesmo com os apelos do amigo que o consola. Continua a chorar até o final do vídeo de 2 minutos e, provavelmente, até o final do dia na escola. E nos outros dias aposto que deve ter chorado também. Até um dia que ele, milagrosamente, para de chorar.

Ele parou. Ele se adaptou à escola. Ele se calou. Ele não precisa mais aparecer nos vídeos, porque agora ele não tem mais graça. Ele passou a ser um “homem que não chora à toa”. Ele aprendeu que é assim que funciona. Não se deve chorar. Chorar é engraçado. Chorar é humilhante. Choro de criança então, mais engraçado ainda. É bonitinho, fofinho, (alguma coisa) + inho.

Por que nos divertimos quando alguém está infeliz? Por que os vídeos de crianças chorando, perdidas ou em situações de desconforto nos causam tanta graça? Qual é a graça? Crianças e suas expressões de sentimentos e emoções devem ser respeitadas. Falamos, ensinamos, pensamos isso, não é?! Então… Por que a graça? Por que não nos colocamos no lugar delas? Por que temos tanta facilidade em diminuir seus sentimentos, menosprezando o que pensam, o que sentem, o que querem, o que desejam?

Não me acusem de ser radical ou mesmo muito sensível. Não é tão fácil ser criança quanto todos pensam que é, principalmente no nosso tempo. Em tempos de exposição gratuita e sem medidas.

Esse só é mais um, entre tantos vídeos de crianças que circulam pela internet, cujo protagonista (a criança) chora de tristeza, de angustia, de desespero por querer algo que não está ao seu alcance. Adulto, você mesmo que está filmando a cena para colocar na internet, uma sugestão: larga a câmera e acolhe, abraça, acalma, fica ao lado da criança que chora. Quieto. Empático. Sentido por ela. Se puder, faça melhor, pense em um trabalho que possa evitar esse choro desnecessário, já que você também concorda que uma hora ou outra, ele vai ter que “encarar a escola de frente”. Até porque não há escolha, não é?!

A escola, aquele mesmo lugar que você e eu e todos os adultos dizem que deveria ser um lugar prazeroso, incrível, transformador, começa tantas vezes assim, chorando para ir embora… Mas todo mundo se acostuma. Todo mundo se cala. Porque não é mesmo para ter graça. A escola é lugar sério. É lugar de trabalho. De estudo. Estudar é difícil mesmo, mas necessário. Necessário para ser um homem. Um homem sério, um homem que não chora. Um homem que não se fragiliza à toa. Forte, como bem aprendeu o amigo do vídeo que o consola.

Mas, sinceramente, não sei quem me preocupa mais. O menino que chora ou o menino que consola. A este último não demos nem a chance de ser consolado. A este último não demos nem a chance de ser criança. O que fazemos agora, então? Rir talvez não seja a melhor escolha.

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* Paula Saretta é psicóloga. Doutora em Educação pela Unicamp. Mestre em Psicologia Escolar pela PUC-Campinas. Aperfeiçoada em Queixa Escolar pela USP. Formadora de professores e Consultora em Psicologia e Educação. Fundadora do site/blog Ouvindo Crianças.

  • Raquel Altafini

    Concordo com você, amiga. As crianças e o que sentem são desconsiderados demais pelos adultos. Doeu ler os comentários abaixo do video: lindos… adorei…. mas, acho que a ignorância muitas vezes nos leva a termos atitudes assim. Quem dera nosso país investisse em divulgar esse tipo de conhecimento. Parabéns pelas duas reflexões e amor na profissão.

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Sim, Quel… Jamais quis ofender a pessoa que registrou… Quando vi o vídeo pela 1a vez também achei “lindo”. Acho que lindo é um adjetivo para dizer que é bonito mesmo ver duas crianças se ajudando, uma tentando ajudar a outra! Também gostei muito da atitude do menino que consola, se pensarmos nesse sentido de ajuda, de querer fazer algo pelo outro… A questão do respeito aos sentimentos das crianças vai além disso, né?! É algo tão culturalmente aceito o fato de não nos preocuparmos (no sentido das necessidades emocionais) com os choros da criança, que rimos por não termos mais “condição” ou disposição (emocional) de nos colocar em seu lugar. Foram só reflexões, sem querer atingir ninguém, mas que podem nos fazer pensar diferente, por outro ângulo, né?! beijos e muito obrigada!

  • Gabi Aranha

    Perfeito! Me incomoda mto essa super exposição do sofrimento como algo engraçadinho. Mtas pessoas não compreendem que as crianças sentem como nós, mas pensam de maneira diferente.

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Exatamente Gabi!!! bjs

  • dina saretta

    Pa,entendi o seu Olhar!!!! Obrigada!!!!!!!!!!!!!

  • Carol Vaz

    Nunca fui de deixar minha filha chorando e sempre fui reprimida por isso. Os outros diziam que era bom chorar, é a expressão dela e que abre os “pulmõeszinhos” … aff

  • Karina Campos

    Parabéns! Excelente forma de abordar um tema tão delicado, cercado de teorias. Tenho uma filha de 2 anos e 10 meses que nunca entrou nem um dia sequer sem chorar na escola. Também sou psicóloga, mas dela sou apenas mãe e o quanto é difícil e sofrido esse momento de desvincular e fazer algo que eles não queiram fazer. Cada lágrima da minha filha vale um diamante pra mim, por isso me envolvo até que as questões se pacifiquem por entendimento e não apenas por comportamento. Grande abraço admirado. Karina.

    • Paula Saretta

      Muito obrigada, Karina!

  • Marcela Gomes Petronetto Canal

    Belíssima explanação sobre o assunto. Parabéns

    • Paula Saretta

      Muito obrigada, Marcela!

  • Gislaine Kalinowski

    Eu vi esse vídeo. Meu coração ficou apertado com o menino que consolava o irmão… Pensei que pelo menos ele ainda sentia empatia e se solidarizava com o menor. Sou professora, muitas vezes não dá para abraçar uma criança tão pequena porque se está fazendo algo igualmente importante. Mas se dá para filmar, certamente dá para largar a P* do celular e fazer alguma coisa, nem que seja meio estabanada como o do menino maior, pelo menos ele se mostrou preocupado com o sofrimento do pequeno.

  • Zilma

    Pior é qdo o sofrimento da criança é provocado, pra virar um vídeo que irá bombar na internet. Entre tantos há o da meninha que a mãe mostra um gatinho que repete tudo que a pequena fala, às lágrimas ela diz que o gatinho ” roubou minha voz ” Que triste.

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  • Ana

    Falando em choro…
    Tenho um filho que mês que vem completará 3 anos e desde muito cedo trabalho com ele a inteligência emocional. E pela idade, teve que permanecer na mesma “série” escolar. A Escola preferiu que eu o “repetisse” de ano por ser muito novo e que dessa forma ele não sentiria muito. Engano meu. Vi meu filho sofrer, em tão tenra idade. Ele criou vínculo com a turma anterior e via seus amigos em outras atividades mais interessantes e ele ali, sendo este ano o mais velho da turma, na fase já de interagir com o grupo e os colegas atuais de classe ainda naquela fase individual. Quis voltar atrás e a Escola disse que ele estava na turma correta e que a turma de origem não há mais vaga. Tudo isso por causa da “Lei da idade” e não da capacidade da criança. Meu filho se “adaptou” à nova turma porque ele é uma criança normal, saudável, mas eu percebo que ele interage muito mais com crianças da idade ou mais que a dele. O mesmo ocorre muito pouco com a turma atual.
    Concluindo, achei que pelo fato da escola ser alternativa, tivessem um olhar diferente sobre a educação da criança, me ouvissem quando eu me queixava dos choros além do normal e agressividade dentro de casa, isso porque meu filho é uma criança tranqüila, apesar de espoleta. Ele estava sentindo falta da turma anterior, na qual passou um ano formando vínculo com eles, seu primeiro grupo fora do convívio familiar. Não só ele como eu também sofri e ainda sofro, pelo fato dele ter se desvinculado deste grupo anterior, na qual indireta ou diretamente eu e meu filho criamos um vínculo. Subestimaram a capacidade emocional do meu filho. Não seria superproteção da minha parte ou o fato de ser filho único. Seria ter empatia e respeito com os sentimentos do meu menino. Muito importante termos inteligência emocional com os nossos filhos!!!
    Fica a dica, papais!!!