Momento Psicóloga

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PELA TROCA DO… POR….

2 fevereiro, 2014, Paula Saretta Momento Psicóloga 11


PELA TROCA DO… POR….

*POR Paula Saretta

Todos nós sabemos que nosso modo de nos comunicar, o quê e quando falamos é definidor da qualidade das relações que vamos construindo ao longo da nossa vida.

Quando nos comunicamos com as crianças pequenas, principalmente em situações informais, do cotidiano, evidenciamos o que pensamos sobre infância, sobre ser criança, sobre desenvolvimento infantil, etc. Explico melhor: mesmo quando temos um discurso orgulhoso de que devemos respeitar a criança como ela é ou que entendemos as brincadeiras infantis como fundamentais para promover todas as dimensões do desenvolvimento humano, por exemplo… Ainda assim, nossas crenças sobre disciplina, educação e infância aparecem em momentos que menos esperamos. Ou seja, em momentos não planejados, informais, numa conversa à toa com as crianças…

Pois bem, com isso podemos pensar no peso das nossas palavras numa comunicação cotidiana com as crianças e, especialmente, na comunicação entre pais e filhos.

Refletir sobre nossos modos de agir no mundo não é garantia de relacionamentos sempre harmoniosos ou pacíficos com as crianças. Pelo contrário, quanto mais entendemos de desenvolvimento infantil e conseguimos “ler” o que pode estar por trás das atitudes e falas das crianças, mais compreendemos o processo como um todo. Mais entendemos, por exemplo, que os conflitos aparecem todas as vezes que as crianças (principalmente pequenas) estão testando sua própria capacidade de contrapor-se aos adultos, estão, pela primeira vez, reconhecendo seus desejos, suas necessidades, expressando seus sentimentos, etc. na tentativa de constituírem-se como sujeitos sociais.

Para quem nos acompanha pelas redes sociais, talvez já conheça algumas das frases que temos colocado periodicamente, sugerindo modos positivos ou menos ameaçadores de conversar com as crianças (“PELA TROCA DO… POR…”). Por conta disso, alguns pais pediram para que explicássemos o que pode estar por trás de cada frase, bem como suas possíveis implicações nas pequenas ações do dia a dia.

Vou tentar ser bem didática para favorecer o entendimento. Mas, lógico, que assim como tudo que escrevo por aqui, a intenção não é generalizar e dizer o que é certo ou errado, mas sim favorecer para que cada um reflita, dentro de suas possibilidades e crenças, sobre alguns possíveis deflagradores de brigas e discussões, tantas vezes desnecessárias. Pensando, portanto, no peso das palavras, no sentido que elas podem ter para as crianças quando as ouvem.

Vamos pensar, então, nos diálogos que sugerimos nas redes sociais, usando duas postagens para exemplificar. A primeira que se dirigia a uma criança que tinha deixado o quarto bagunçado e a segunda sugeria um possível diálogo para avisar o filho que estava na hora de dormir.

PELA TROCA DO…

“Filho, você nunca arruma suas coisas! Não vou mais avisar, por mim seu quarto vai ficar bagunçado assim!”

Aqui notamos claramente frases que podem afetar a auto-imagem da criança, sugerindo um rótulo de “preguiçoso”, “bagunceiro”, quando dito “você NUNCA arruma as suas coisas”. De tanto ouvir que você é bagunceiro e preguiçoso, quem sabe não fica mais fácil assumir essas características e parar de lutar contra isso?

Além disso, o tom de ameaça, quando é dito “Não vou mais avisar” e depois de poucos minutos você “esquece” o que disse e avisa novamente, não só você acaba perdendo a credibilidade, como também faz com que aquele comentário deixe ser ouvido. Ou seja, de tanto ouvir ameaças sem fundamento, a criança começa a ignorar completamente a solicitação. Aí, dizemos: “Meu filho tem ouvido seletivo! Só ouve o que quer!” Não é difícil imaginar o motivo disso, se sempre dizemos algo e não cumprimos, não dá para confiar, não é?

Além disso, vamos pensar: quando você se sente atacado, o que faz? Como você reage? Com mais agressividade ou simplesmente ignora para não brigar mais?

A sugestão foi pela substituição POR…

“Filho, é preciso arrumar suas coisas, porque senão você não terá mais espaço no quarto para brincar e receber seus amigos!”

Aqui a frase tem uma breve e simples explicação do que deve ser feito, não é? Ou seja, quando explicamos (brevemente e objetivamente) os motivos pelos quais algumas coisas devem ser realizadas, seja por segurança, seja por saúde, etc., a criança não só percebe a necessidade da ação, mas também começa a entender e responsabilizar-se pelos benefícios que aquela atitude pode trazer em sua vida, sem se sentir ameaçada e atacada. O limite e a regra do que deve ser feito é colocado com firmeza e tranquilidade (em poucas palavras!). Percebam, portanto, que existe autoridade na fala, mas não um jogo de poder, de ordem autoritária, que, tantas vezes, amedronta e causa medo.

Além disso, o que podemos ainda chamar atenção para essa troca de modo de se comunicar, reside no fato de que não há, em nenhum momento da frase um julgamento implícito, uma tentativa de diminuir a criança.

O segundo exemplo foi sobre a hora de dormir. Na ocasião, sugerimos:

PELA TROCA DO…

“Filho, já avisei mil vezes que está na hora de dormir! Desligue logo essa televisão e vai! O seu amigo João é mais novo que você e já sabe dormir sozinho!”

Neste caso, a ideia é muito semelhante ao exemplo anterior em termos de ameaças. Mas aqui tem uma diferença quando é dito que uma determinada criança é melhor ou já sabe fazer algo que seu filho ainda não sabe, mesmo sendo mais novo. O que podemos pensar é que, mesmo de modo muito sutil, a fala desvaloriza a criança e agride sua auto-confiança, sua auto-imagem.

Alguns podem defender: “A intenção é fazer com que ele se sinta desafiado e mude seu comportamento!”. Concordo que pode até “dar certo” para algumas crianças mais competitivas, mas coloque-se no lugar delas por alguns minutos e pense: o que este tipo de comparação pode causar? Você se sente bem quando é comparado por alguém que é julgado como sendo melhor que você, mesmo sendo mais novo, menos experiente, etc.? Então…

A sugestão foi pela substituição POR…

“Filho, sei que você gosta desse desenho, mas agora está na hora de dormir. Vamos lá para o seu quarto que vou contar uma história bem legal para você, quando você deitar”.

A troca aqui sugerida tem duas principais justificativas:

A primeira, com as frases “sei que você gosta”  e depois “mas agora” – sugere a ideia de que você está sendo compreensiva com os sentimentos e desejos da criança, aceitando e respeitando a ideia de que ele adora o desenho, por exemplo. Mas isso não sugere uma permissividade ao comportamento dele de querer assistir TV até tarde. Ou seja, sentimentos e comportamentos são bem diferentes!

Sentimentos devem ser respeitados, comportamentos devem ser ensinados! 

Uma outra intenção, neste caso, foi mostrar cooperação, cumplicidade, ideia de estar junto, de fazer parte do processo, quando dito: “vou contar uma história quando você deitar”. Assim, o ganho de ter a mãe ou pai por perto, contando uma história e estando junto naquele momento antes de dormir, pode parecer um ótimo motivo para desligar a TV e ir correndo para a cama, não é?

Como já dissemos algumas vez por aqui, as consequências das nossas ações e atitudes no nosso meio social (perda de carinho ou afeto de pessoas da familiares, professores, amigos ou na escola) são, muitas vezes, mais eficientes do que ameaças vazias e falas que apenas atacam a auto-confiança com agressividade e autoritarismo.

Mudanças nunca são fáceis, mas se algo está lhe incomodando na relação com seu filho, é necessário, sim, pensar sobre tudo isso com calma e muita atenção. Quem sabe uma simples mudança no modo de falar, poderá trazer grandes resultados? Não sei e não garanto que vai funcionar, mas de uma única coisa tenho certeza: você não vai se arrepender de tentar surpreender!

Afinal, você é o adulto da relação, você tem recursos e condições de mudar seu modo de agir, não espere isso de uma criança em pleno desenvolvimento afetivo-emocional.

A proposta do Ouvindo Crianças tem como uma das principais inspirações, o grande pedagogo, médico pediatra e defensor voraz das crianças orfãs de guerra, o polonês Janusz Korczak  (1878-1942). Por isso, como finalização, repetimos uma de suas falas que nos serve de lema por aqui.

Aos adultos:

Vocês dizem ainda: “Cansa-nos, porque precisamos descer ao seu nível de compreensão”. Descer, baixar-se, inclinar-se, ficar curvado. Estão equivocados: Não é isso que nos cansa, e sim, o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível dos sentimentos das crianças. Elevar-nos, subir, ficar na ponta dos pés, estender a mão, para não machucá-las.

(Janusz Korczak, “Quando eu voltar a ser criança”, 1981, epígrafe)

E…Ficamos assim.

___________

* Paula Saretta é psicóloga. Doutora em Educação pela Unicamp. Mestre em Psicologia Escolar pela PUC-Campinas. Aperfeiçoada em Queixa Escolar pela USP. Formadora de professores e Consultora em Psicologia e Educação. Fundadora do site/blog Ouvindo Crianças.

  • Gisa Hangai

    Oi Paula! Ótimo post. O modo de falar diz mais que as palavras. Isso é fato. É testar para acreditar. Como vivemos com a cabeça cheia, apelamos para ameaças, rótulos e gritos e frequentemente deixamos por isso. Os dias vão passando e vamos nos acostumando a falar “de mal jeito”. Um dos nossos maiores erros na relação pais e filhos. Mas se colocarmos essa mudança de hábito como uma prioridade, vamos colher bons frutos. Adorei o blog e vou continuar acompanhando. Beijos, Gisa Hangai / http://www.maebacana.com.br

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Olá Gisa, muito obrigada pelo seu feedback!!! Muito bom tê-la por perto! um grande beijo, Paula
      ps: vou acompanhar o seu blog também, muito obrigada por compartilhar!

  • Marusia

    Paula,
    gostei muito do seu blog.
    A frase do Korczak é precisa. Sabe que, nesse processo de “ficar na ponta dos pés”, é possível resgatar nossa criança interior. Assim, o aprendizado é mútuo.
    Um beijo,
    Marusia
    http://maeperfeita.wordpress.com

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Muito obrigada, Marusia!! Fico muito feliz que tenha gostado e mais ainda por tê-la por perto a partir de agora, trocando, refletindo juntos… um grande beijo, Paula

  • Celina Aragão Simionatto

    Paula,
    Aprendo muito com você! Parabéns pelo seu blog e seus comentários tão elucidativos. Bjs

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Celina, que bom! Adorei saber que gosta do blog!!! um beijo e muito obrigada!

  • Lucia Peçanha

    Paula, querida:
    Excelente esse post! Adoro seu jeito claro e amoroso de escrever. Essa questão “do que dizer e como dizer” é tão importante!
    Sempre alertei, também, sobre o perigo de “culparmos” os outros e até coisas de nossos problemas. Por exemplo: a criança bate a cabeça na mesa e a mãe diz: Mesa feia, machucou meu filhinho! O melhor é avisar, de antemão, que há perigo e de tomar cuidado e depois do acontecido dizer que sabe que está doendo mas que temos de sempre tomar cuidado. Estamos falando com alguém que terá que assumir seus atos pela vida a fora. Mas reconhecemos a dor, os sentimentos. Como vc tão bem falou! Beijinho

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Muito obrigada, querida Lúcia! Adorei seus comentários também! “Mesa feia” não acrescenta nenhum tipo de aprendizado. Aprendizado em conhecer seu corpo, seus limites corporais, etc., como tão bem nos fala Emmi Pikler, não é?! beijos e obrigada, mais uma vez, por seu comentário.