Dicas de livros infantis

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O maravilhoso encontro entre gerações

23 julho, 2013, Paula Saretta Dicas de livros infantis 13


O maravilhoso encontro entre gerações

POR Paula Saretta*

Em tempos de culto ao corpo “jovem e belo”, o processo de envelhecimento tornou-se, para muitas pessoas, um verdadeiro drama existencial.

É certo que as pessoas estão vivendo mais, mas a que preço? Aquela imagem da vovó de cabelo branco esperando seus netinhos com um bolo quentinho saindo do forno, está cada vez mais difícil de encontrar. Hoje, há até quem se envergonhe de ser chamada de “avó” em público, “porque podem achar que sou velha”.

A condição humana de ser ou estar “velho” foi assumida definitivamente em sua versão pejorativa, sinônimo de antiquado, desatualizado e antigo. Atualmente, na nossa cultura, criou-se uma nova categoria chamada “3a idade” ou “melhor idade”, também para amenizar e resgatar o valor das pessoas idosas.

Valor incontestável sim, mas ainda pouco compreendido. Idosos com frequência são tratados como crianças. Ou, ainda, quando estão lúcidos e saudáveis mentalmente, como já aconteceu com meu avô, por exemplo, algumas pessoas perguntam, espantadas: “Ele é lúcido? Que bom! Ainda bem que não tem Alzheimer!”. Oi? Ainda bem (mesmo!) é que a lucidez e sabedoria do meu avô faz com que ele não se incomode e entenda a indelicadeza de alguns desavisados.

Incontestável mesmo é a beleza do encontro entre as gerações, as aprendizagens que podem ser descobertas entre pessoas que vivem numa mesma época, mas que estão em fases de vida tão diferentes.

De um lado, uma criança em pleno desenvolvimento, conhecendo a vida com olhos de primeira vez e, de outro, um idoso com anos muito bem vividos, com tantas histórias para contar, com olhos fraternos e já cansados…

Quando observo os encontros entre idosos e crianças, compreendo e respeito ainda mais os ciclos da vida. Lógico que lá no fundo, muitas vezes, lamento que os encontros entre gerações tão distantes sejam tão breves. Mas acredito em sua intensidade, nos “tempos emocionais” despendidos, nas belas marcas afetivas que ficarão para sempre nas memórias dos que ainda têm a vida toda para ser vivida.

Falando em memória, um dos livros infantis, para mim, mais inspiradores relacionado ao tema que estamos conversando, chama-se “Guilherme Augusto Araújo Fernandes”, da autora australiana Mem Fox, editado pela Brinque-book (imagem destacada).

O livro tem o nome de um dos personagens principais, que é uma criança vizinha de um asilo de idosos. Guilherme Augusto fica sabendo que uma das idosas, chamada Dona Antônia, havia perdido a memória. Ele logo resolve entender o que significa memória e vai perguntar aos demais moradores do asilo. Como respostas, ele ouve vários significados diferentes para sua pergunta “o que é memória?”. Respostas como: memória é algo antigo, algo que faz chorar, algo que faz rir, algo que vale ouro, algo quente, etc.. Guilherme Augusto, então, volta para casa para encontrar “as memórias perdidas” da Dona Antônia. Resolve montar uma cesta com vários objetos que, para ele, tinham o mesmo significado do que ouviu. Por exemplo, ele pega uma bola de futebol que, para ele, valia ouro, um ovo ainda quente da galinha, conchas que eram antigas, uma medalha do seu avô, etc..

Com a cesta em mãos, Guilherme Augusto vai em busca de devolver para Dona Antônia todas as suas memórias perdidas. Quando eles se encontram, Dona Antônia vai retirando os objetos da cesta e realmente começa a se lembrar de vários acontecimento especiais de sua vida, de sua irmã, de sua infância, etc… O livro termina com os dois brincando felizes, pois uma criança, ainda tão nova, havia conseguido resgatar memórias tão importantes de uma senhora idosa.

O livro muito me emociona pelas razões óbvias, mas também porque me faz lembrar de pessoas próximas que amo verdadeiramente. Pessoas que são parte fundamental da minha vida e enchem meu mundo de sentido. Meu sobrinho Felipe (8 anos) e meu avô Dim (95 anos) – foto abaixo.

Meu avô nos ensina, em sua luta diária pela vida, coisas que certamente Felipe e eu guardaremos para sempre em nossas memórias: que o valor da vida está nas relações que construímos, no respeito que cultivamos, numa palavra gentil e bem humorada que proferimos e no amor verdadeiro que doamos.

São poucas as coisas que realmente valem a pena na vida e isso também se aprende com os mais velhos. Mas para aprender, não é necessário montar uma cesta com presentes, como fez o encantador Guilherme Augusto, basta pararmos um pouco para ouvi-los… Com paciência, calma e, principalmente, com o coração disposto e atento.

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* Paula Saretta é psicóloga. Doutora em Educação pela Unicamp. Mestre em Psicologia Escolar pela PUC-Campinas. Aperfeiçoada em Queixa Escolar pela USP. Formadora de professores e Consultora em Psicologia e Educação. Fundadora do site/blog Ouvindo Crianças.

  • Roberta

    Paula, como é verdadeira essa relação de amor entre o vovô e o Fe.
    Que nesse ano de 2013 possamos encontrar essa verdade no coracao das pessoas. Feliz 2013!
    Amo vc, Ro

  • Dina

    Paula,amei este post. Como sao importantes estas pessoas em nossa vida, e como nos Ensinam, nos Estimulam a viver uma vida mais simples,com mais Coracao!!!!!!!!!!!!!! Amo todos voces!!!!!!!!!!!!!!! Dina

  • Carol

    Lindo, amiga!!!!

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Obrigada, amiga querida! bjs

  • Karina Calderoni

    Lindo, lindo e lindo! Amei você ter me indicado o “Guilherme Augusto” aquele dia, já comprei, já li e já chorei com ele. Não tem coisa melhor no mundo que os avós!!!

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Ká, muito obrigada querida! Tb. acho que no mundo não tem coisa melhor que os avós! muitos beijos

  • Francieli

    lindo texto, assim como todos os outros! parabéns, sou sua admiradora!

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Muito obrigada querida Francieli! beijo grande, Paula

  • carmem silvia (prima)

    Paulinha, vc se expressa de uma maneira tão clara e sempre nos emociona. Quem achar que seu avô não é lúcido é pq nunca bateu um bom papo c/ ele… Além de lúcido é perspicaz e divertido… Espero poder ir na sua próxima palestra. bj.

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Obrigada, querida Sílvia! Fiquei muito feliz com seu elogio!!! Meu avô é sim, tudo isso e muito mais! beijo grande

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