Dicas de livros infantis

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Mãe, vai ficar a cicatriz?

15 junho, 2013, Paula Saretta Dicas de livros infantis 2


Mãe, vai ficar a cicatriz?

POR Paula Saretta*

Laura, 6 anos, pergunta para sua mãe ao ver pessoas machucadas[1]: “Mãe, vai ficar cicatriz?”. A mãe, surpresa, responde: “sim, filha, vai ficar a cicatriz, mas não sei se vai dar para a gente ver”. Laura, depois de pensar um pouco, exclama: “ah, ela vai cobrir com a roupa, então, né?”.

Machucamos, caímos e levantamos… E tudo isso vai deixando cicatrizes, algumas mais profundas, outras superficiais, que quase nem aparecem. Assim vamos nos constituindo, assim vamos nos fortalecendo. Mas, agora, quando são as crianças que se machucam e, neste momento, digo no sentido literal, por uma queda na escola ou em casa, por exemplo, a dor não é só dela, não é? Sentimos junto, sofremos junto. Às vezes até mais do que elas. Às vezes de um modo que elas nem entendem.

As preocupações são tantas, com possíveis sequelas no movimento, com o tempo do tratamento e recuperação, com a estética depois, etc. E uma das grandes questões é essa mesma da Laura: “vai ficar cicatriz?”

Tantas são as histórias por trás de uma cicatriz, histórias não só dos fatos em si, mas, principalmente, das lembranças do local em que aconteceram, dos cuidados que recebemos, das pessoas que nos ajudaram em momentos de fragilidade, etc.

Pensando nisso, o escritor Ilan Brenman fez um dos livros que mais gosto dele, chamado “A cicatriz”. O livro, editado pela Companhia da Letrinhas, conta a história da Silvinha, uma menina que machuca seu queixo ao cair em casa e descobre que sua cicatriz poderia contar uma história um dia. O autor conduz, de modo sensível, o entendimento simbólico do machucado da personagem Silvinha. Assim como ela, muitas pessoas tinham cicatrizes e histórias incríveis para contar de cada uma delas, seus pais, o avô, o médico, a tia, etc. Ela faz, então, de seu machucado no queixo, um momento de belas e novas descobertas sobre sua família e sobre a vida.

Gostaríamos que algumas coisas fossem diferentes, mas não temos como impedir completamente que as crianças se machuquem e formem cicatrizes. São marcas necessárias para a vida, são a prova de que estamos vivendo, de que estamos nos arriscando… No entanto, algumas feridas simbólicas, aquelas que tantas vezes demoram para cicatrizar, que geram sentimentos de vergonha, de medo, de fracasso, podem deixar as crianças com medo de se arriscar novamente. Nestes casos, precisamos olhar com atenção. Na hora certa, no momento certo. É preciso e necessário ajudá-las nas cicatrizações emocionais… Mais do que saber qual remédio que arde menos, nosso papel, como adultos, é estar lá, dando suporte emocional para eles ressignificarem suas dores, auxiliando a traduzir seus medos e angustias.

“Eles crescem e isso passa”. Não, não passa. O tempo não cura tudo… O tempo apenas ameniza, silencia a dor. Se não cuidarmos da cicatriz, ela sempre estará lá. Tão frágil, que se esbarrar, ainda sangra. Por isso, não tem outro jeito, a não ser cuidando dela, deixando que a ferida sangre até estancar. Doa o que tiver que doer. É preciso encarar nossas sequelas emocionais, os movimentos perdidos pelo caminho, a dor que ainda insiste em aparecer em momentos de descuido. Cuide dela, não cubra com a roupa. Só assim ela poderá, um dia, ser cicatrizada e, quem sabe, se transformar em uma boa história pra contar.

 

 

 

 


[1] Laura estava se referindo ao confronto entre manifestantes e a polícia na última semana (10-14/06/13).  Imagens veiculadas em vários canais de comunicação.

* Paula Saretta é psicóloga. Doutora em Educação pela Unicamp. Mestre em Psicologia Escolar pela PUC-Campinas. Aperfeiçoada em Queixa Escolar pela USP. Formadora de professores e Consultora em Psicologia e Educação. Fundadora do site/blog Ouvindo Crianças.

  • dina saretta

    Lindo texto,Paula! Te amo ! Beijos

  • Tamara

    Paula querida, amei o texto!!! Sensível e “sabedor” das necessidades dos pequenos, necessidades essas para quais devemos estariam o olhar sempre atento!