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Tenho medo de ficar sozinha… com meus filhos!

20 janeiro, 2013, Paula Saretta Momento Psicóloga 25


Tenho medo de ficar sozinha… com meus filhos!

POR Paula Saretta*

Não! Não dá para ter tudo na vida.

Recentemente uma amiga me contou que em seu condomínio há uma casa com duas crianças de 2 e 4 anos e mais três babás. As babás se revezam dia e noite, alternando os turnos, em períodos equivalentes aos plantões médicos.

As crianças são absolutamente saudáveis e vão à escola em um dos períodos do dia. Nas férias e finais de semana, também estão, quase sempre, sob a supervisão e cuidados das profissionais e não dos pais. O motivo de tudo isso? Os pais trabalham muito, principalmente a mãe, que é uma executiva bem sucedida profissionalmente.

Olhando esta situação, de fora, sob as lentes impulsivas e preconceituosas que adoramos ter quando não estamos falando de nós mesmos, fica fácil dizer: “se é assim, melhor não ter tido filhos”.

Não conheço pessoalmente os pais do exemplo, mas vou tentar imaginá-los e criar algumas hipóteses de um fenômeno que acho que, infelizmente, não é exclusivo deles.

Todos nós temos as nossas singularidades e modos de ver o mundo, mas somos também produtos do nosso meio. Vivemos num mundo com determinadas demandas sociais, com algumas lógicas de funcionamento e valores morais, que vão ficando arraigados na pessoa que vamos nos tornando.

Muitas vezes nem nos damos conta de tudo isso e vamos vivendo assim, sem crítica, aceitando passivamente a vida que está sendo vivida e não pensada. Reclamamos, sofremos com nossas angustias, mas fazemos poucas mudanças efetivas.

Ninguém quer abrir mão dos bens conquistados, das mordomias de uma vida entendida como confortável e “merecedora”. Afinal, quem trabalha mais do que vive ou vive para trabalhar, merece viver bem!

Se conversássemos com os pais do exemplo, poderíamos nos surpreender ao perceber que eles acreditam, profundamente, que estão fazendo o melhor para seus filhos, oferecendo cuidados profissionais ao invés de escolas o dia todo; ou por oferecer o melhor suporte financeiro, que “toda criança gostaria de ter”.

Amor? Carinho? Atenção? “Lógico que também oferecemos, ao nosso modo. Eles sabem muito bem o quanto os amamos, são NOSSOS filhos” – eles poderiam dizer.

A meu ver, o que parece estar por trás de tudo isso, além do que já conversamos, é que eles têm MEDO. Explico: medo porque julgam não saber agir como pais. Temem fracassar. Não “conhecem” mais as crianças do nosso tempo… Foram criados por pais que desejavam ver seus filhos, mulheres e homens, “vencerem na vida”. Entrar em grandes Universidades, trabalhar em excelentes empresas e, lógico, ganhar dinheiro.

Sentem-se perdidos como pais e mães. Como devemos criar nossos filhos? O que é esperado que façamos? O que significa dar o melhor?

Pensando especialmente nas mulheres, em regra geral, as mais bem sucedidas na nossa sociedade contemporânea, são aquelas que ganham bem, que ocupam cargos de chefia e orgulham-se em dizer que “não nasceram para ficar em casa, cuidando de filhos”.

Acho legítimo o discurso de valorização das mulheres. Não é de um discurso machista e vazio que estamos falando. Tenho, pessoalmente, um prazer imenso em trabalhar e estudar. O que estou tentando defender é que, na minha opinião, muitas delas estão esquecendo que, assim como aprende-se a ser uma executiva de sucesso, também aprende-se a ser mãe.

E o mesmo serve para os pais, obviamente. É disso que estou falando. Ninguém nasce sabendo ser mãe ou ser pai! As relações entre pais e filhos, assim como qualquer outra, são relações construídas, que simplesmente não existem por elas mesmas…. Só porque é seu filho….  Não é uma relação “natural”, “inata”, “de sangue”, como alguns defendem…

Se eu pudesse conversar com a mãe e o pai do exemplo, diria: é preciso, sim, priorizar, por um certo momento da sua vida, a educação dos seus filhos. Para isso, é necessário também, assim como no seu trabalho: ter disciplina, dedicação, empenho, atenção, paciência, organização, autoridade, “jogo de cintura”, flexibilidade, uma boa negociação, romper o tempo todo com suas crenças de como ter sucesso e, principalmente, ser muito criativa. Características que você, acredite, tem de sobra!

Priorizar não significa abandonar sonhos profissionais. Jamais pensaria em dizer isso. Até porque seus filhos os odiariam por isso e você certamente seria uma mãe ou pai muito pior, muito mais infeliz.

No entanto, é preciso dedicar parte de seu tempo físico e emocional SÓ para eles. Isso não significa o dia todo junto… Pelo contrário, acho importante contatos com outras crianças, outras atividades… Não sei e não saberia dizer quanto tempo é suficiente para estar junto de verdade. O amor, certamente, não se mede assim…

Quer saber? Coragem! Vai lá… Saber o que eles pensam, o que querem, o que gostam… Vai, enfrente seus medos e receios. Certamente você vai se surpreender pela beleza do universo das crianças que, quase sempre, tem muito mais a nos ensinar do que o contrário.

__________

* Paula Saretta é psicóloga. Doutora em Educação pela Unicamp. Mestre em Psicologia Escolar pela PUC-Campinas. Aperfeiçoada em Queixa Escolar pela USP. Formadora de professores e Consultora em Psicologia e Educação. Fundadora do site/blog Ouvindo Crianças.

 

  • http://dina dina saretta

    paula, mais uma vez reconheco-me como mae de `antigamente`.Nao tive duvidas em por um tempo deixar o trabalho (profissionalmente) e cuidar das criancas ,que eram tres, em tres anos e meio Se fiz Certo ou Errado ,NAO SEI!!! Mas nao arrependo-me Orgulho-me e tenho saudade desta fase da minha vida . .

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Ah!! Você não vale! rs Também tenho muito orgulho das suas escolhas. Obrigada por ter feito essa opção, também tenho muitas saudades. bj grande

  • caroline

    mina linda Paulinha,adorei o post…e vivo isso…logicamente não desta maneira,mas como uma derivação dela…como muitas mães(pra não dizer a maioria)nos dias atuais.Vou sugerir uma matéria sobre mães adolescentes e mães que vivem uma união estável homoafetiva…o que acha?bjos e sdes da sua maior fã de todos os tempos

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Minha linda! Verdade! Você sabe muito bem do que estamos falando, né?! Adorei as sugestões, já anotadas! Assim que conseguir escrever, lhe aviso, tá?!

  • Camila

    Paula… Muito bom ler seus posts!!! Vou te encaminhar uma matéria de um professor da Unicamp.. Talvez você já conheça, mas não custa…
    Mas vou fazer por email pois não sei como fazer por aqui.
    Beijos.
    Camila

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Cacá, obrigada pela indicação do vídeo! Adorei! bjs

  • Juliana Dallaqua

    Eu acho extremamente importante dedicarmos um tempo para os filhos…
    Depois de ter a Marina diminui minha carga horária (como profissional liberal tenho essa possibilidade) mas nao deixei minha profissão de lado!
    As horas que passo com ela sao prazerosas e reveladoras… Nao trocaria esse tempo por nenhum dinheiro do mundo(já que deixo de ganhar para ficar com ela).
    E minha carga horária será ainda mais reduzida quando Giovana nascer… Tenho certeza absoluta que o ganho que eu e minhas filhas teros com esse convívio nao tem preço!!
    A cada dia Marina me ensina um pouquinho mais a arte de ser mãe…
    Beijos, Paulinha! E parabéns pelo texto!1

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Jú, que bom querida! Agora com duas a responsabilidade aumenta na mesma proporção da alegria dupla que vai ter sempre a partir de agora! Sem dúvida você fez uma ótima opção com muitos ganhos, alegrias e satisfação. Não tem preço mesmo! bjs

  • Marina Cassoli

    Olha eu aqui neste “jogo de cintura” achando uma melhor maneira de trabalhar e cuidar do Francisco! adorei o post!

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Má, faz parte querida! Boa sorte e conte comigo para o que precisar! bjs

  • Carolina

    Assumo: também tenho e, desde sempre tive, medo de ficar com meus filhos… sozinha! Tá certo que eram dois, gêmeos, prematuros… Mas, apesar de todo o desejo em tê-los, de toda a imensa felicidade que a presença deles sempre me proporcionou, o medo também coexistia… Nunca pude ter babás em período integral, mas tive que voltar a trabalhar muito cedo e eles foram para o berçário, meio período, com apenas 4 meses de vida… Culpa? Sim….Tenho certeza de que a mãe citada também… Como é difícil essa arte da maternagem… Coragem? Também é preciso ter… Trabalhar era necessário, mas, mais do que isso, também me realizava… Muito… Foi um período difícil de readaptação, de reorganização dos tempos, sabendo que, apesar do medo, ficar com eles sozinha, em um tempo só nosso era preciso e acima de tudo prazeroso, muito prazeroso… Fui uma mãe melhor porque pude sentir saudades deles, mesmo que por um período do dia… Fui uma mãe melhor porque pude reservar um espaço do meu dia só para eles: SÓ para eles, com todos os medos, inseguranças e amores presentes… Obrigada, amiga, por escrever histórias que nos fazem re-significar as nossas…

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Oi amiga!! Nem fale!! Acompanhei seus dilemas, suas angustias e, como sempre, aprendi muito com você! Obrigada você, por compartilhar de modo tão sensível e verdadeiro suas vivências com seus filhos, hoje, já tão grandes e “sabidos”, né?! beijo grande

  • Sílvia Maria Bueno

    Paula: Muito bom o post. Eu abri mão do “material” para ficar com meus filhos enquanto pequenos, e nunca me arrependí disto. Começei a trabalhar com 30 anos, e olha que me casei aos dezoito e aso dezenove já tinha o 1º filho dos 3 que tenho.
    Abraços.

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Olá Sílvia, que bom ouvir suas palavras. Parabéns pela sua trajetória. Fiquei muito feliz que tenha compartilhado!

  • Natalina

    Querida Paula,

    Amei as suas reflexões sobre um tema bem complexo. a forma como vamos nos tornando o que somos! Penso que há também as mães se cobram demais e acham incompetentes em função do modelo de mãe que viveu com a própria, e a imagem que acredita que fazem dela. De tudo se tomarmos a consciência que ser mãe, profissional e pessoas é um caminho que percorremos ao longo da vida. Ah, isso já ajuda bem nossas neuras! bjos querida!

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Olá Natalina! Muito obrigada querida!!! Fico muito feliz que tenha gostado. Caminho longo (e eterno!rs) mesmo… bj grande

  • Aline Merone

    Tem um artigo sobre trabalho e maternidade que ficou famoso escrito sobre uma secretaria de governo do Obama, chamado “vvhy vvomen still cant have it all”. Acho que vc devia ler. Nao parei de trabalhar, mas diminui o ritmo e reformulei minha lista de prioridades. sou filha de mae que sempre trabalhou muito, e tenho um imenso orgulho da minha mae. Nao acho que seja regra e que funcione da mesma forma pra todo mundo, mas realmente acredito que o que importa e nao carregarmos culpa nas escolhas que fazemos. E sempre sem julgar. Beijos

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Li, vou procurar o artigo sim! Obrigada!!! bjão

  • Karin Teixeira Araujo

    Adorei texto. Adorei o site!
    Parabens pelo trabalho.

    Karin Teixeira Araujo

  • Isabel

    Professora Paula, acho que medo todos tem…enfrentá-los é bem difícil. Eu tive a oportunidade de acompanhar minha filha em tempo integral no primeiro ano, sem perder meu emprego, mas sem vencimentos. Quando minha pequena completou um ano voltei a trabalhar meio-periodo, tempo que ela fica na escola que escolhi com muita atenção… Cuido da alimentação dela com carinho, levo e busco na escola todos os dias…e sei que muitas mães não tem essa mesma chance por diversos motivos…ainda assim a culpa faz parte do meu dia a dia. Seria essa culpa algo cultural ou um sentimento próprio da maternidade?

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Bel, muito boa sua questão! Não entendo como natural esse fenômeno de sentir culpa como parte da maternidade. Acredito que esse é apenas o modo como a sociedade interpreta esse mal-estar que muitas mães sentem quando precisam, por inúmeros motivos, separar-se precocemente de seus filhos. Ou seja, a ideia de chamar de “culpa” me parece o modo como a cultura atribuiu um significado para este sentimento de mal-estar. O que revela o pouco (ou quase nenhum) valor que a nossa sociedade (brasileira, em especial) pensa o papel da mãe ou pai nos primeiros cuidados do bebê. No nosso país a maioria das mulheres trabalhadoras precisam voltar ao trabalho ao final de uma licença de 4 meses. Enquanto que alguns países a licença-maternidade pode chegar a mais de um ano. Resumindo, acredito que se conseguíssemos lutar ou ao menos entender/interpretar esse mal-estar que muitas sentem ao ter que voltar ao trabalho precocemente como não natural, mas, sim, injusto, insuficiente, prejudicial ao desenvolvimento das crianças neste 1o ano e não simplesmente como “culpa”, poderíamos, quem sabe, começar a mudar a nossa história. Mas, Bel, para quem é interessante que as mulheres mudem? Lutem? Pensem diferente, não é?! Temos muito caminho pela frente ainda… ” Beijos e saudades.

  • Elisângela Fleming

    Excelente reflexão sobre um tema que como vc disse, cada um vai encontrar o seu jeito. Eu pensava como esses pais, trabalhava 13, 14 horas por dia quando Miguel nasceu, em eu marido só nos via fim de semana porque trabalhava em outra cidade.
    Mas intimamente isso nos incomodava. Fui perdendo o brilho sabe, o pique, mas não admitia isso e quando ele completou 1 ano e 3 meses fui demitida. Acho que a vida resolveu por mim, meu marido então criou coragem e veio embora, abriu a própria empresa que ele sempre sonhou.Não é fácil financeiramente, abrimos mão de muita coisa, mas não nos arrependemos. Ainda estou em casa, ensaiando uma volta aos estudos, ainda não ao trabalho. Tem sido recompensador para nós.Conseguimos ir na contramão daquilo que nós mesmos acreditávamos ser o certo para nós. Não é fácil, mas acho que o peso maior é da sociedade em torno que ainda critica demais.
    Mas penso que vai passar tão rápido, daqui a pouco meu menino vai alçar voo pela própria vida né, e eu vou ser uma mãe orgulhosa e feliz por ter feito parte mais tempo desse comecinho de vida!!!!

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Elisângela, muito obrigada por compartilhar sua história. Miguel certamente ganhou muito com uma mãe e um pai presentes, mas realmente imagino o que você disse, não é uma resolução fácil e nem uma garantia de felicidade. É uma decisão que envolve, inclusive, uma grande disponibilidade emocional dos pais. Gostei muito de ouvir seu relato e perceber que está feliz com sua escolha. Isso que importa mesmo! Um beijo, Paula.

  • Ninguém cresce sozinho

    Para contribuir com essa reflexão sobre a vida com (ou sem babá), sugerimos o texto: http://ninguemcrescesozinho.com/2013/07/18/uma-reflexao-sobre-a-vida-com-e-sem-baba/