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Reality de bebês: o ponto de vista das mães

10 dezembro, 2012, Paula Saretta Momento Professora 2


Reality de bebês: o ponto de vista das mães

O escritor inglês Rudyard Kipling, em 1902, disse:

“Eu tenho seis serviçais honestos que me ensinaram

tudo que sei; seus nomes são

”o que”, ”por que”, ”quando”,”como”, ”onde” e ”quem”[1].

Nos últimos dias,  tenho visto uma movimentação nas redes sociais e sites de notícias por conta de um programa de mães e bebês confinados em busca de um prêmio em dinheiro. Assim como a maioria das opiniões que li, quando assisti, também fiquei com uma sensação de que tinha algo de muito estranho acontecendo ali. Fiquei especialmente incomodada quando vi uma das mães chorando, tendo que dizer os motivos que faziam com que ela e seu filho de 1 ano e meio, mereciam permanecer no programa mais do que a concorrente, também aos prantos, com seu filho no colo.

No entanto, quando idealizei esse espaço de trocas e reflexões, não passou pela minha cabeça entrar em polêmicas midiáticas ou debater assuntos provocados por “impulsos inconformistas”, até que… Um dia, conversando com uma ex-aluna [do curso de psicologia] sobre isso, ouvi: “Coitada dessas crianças, né? Com mães narcisistas como essas, eles estão perdidos…”

Como não sou mais professora dela, senti-me provocada para tentar comentar, muito brevemente, o que ando pensando sobre o famigerado reality de bebês e, quem sabe, ajudar minha aluna a pensar criticamente sobre esse e outros assuntos.

E é basicamente sobre ter a competência de fazer críticas que pretendo falar aqui e não exatamente sobre o programa (hoje é esse, amanhã é outro semelhante e assim vai…).

As questões que me coloquei como desafio para reflexão quando ouvi o que ela falou, são: “como construímos nossos argumentos e nossas indignações? Por que olhamos, tantas vezes, chocados e revoltados para um comportamento que não aprovamos e dizemos que “jamais faríamos”?”

É bom esclarecer que em um texto curto como esse não responderei  profundamente essas questões. Mas vou tentar, mesmo que brevemente, pensar um pouco em tudo isso, começando pela compreensão do que entendo pela formação de um raciocínio crítico.

Para os leitores que são professores como eu, provavelmente, saberão do que estou falando. Mas para quem não é, explico o que significa formar alunos numa perspectiva crítica: significa incentivar os alunos a analisarem as mais diversas possibilidades, considerando o contexto em que os fenômenos se dão, aprender a defender um ponto de vista através da argumentação, embasados em conhecimentos teóricos e práticos consistentes. Pressupomos, assim, que uma formação que priorize o desenvolvimento destas características poderá formar pessoas com maior possibilidade de uma inserção no mundo responsável, ética, livre e comprometida com o coletivo.[2]

Assim, não pretendo julgar, dizendo se as mães estão certas ou erradas pela participação no programa. Penso que seja necessário, antes de mais nada, tentar entender o raciocínio delas, seus modos de enxergar o mundo…

A questão é mais complexa do que parece. Já que ganhar um bom prêmio em dinheiro e, de quebra, aparecer na televisão para milhares de pessoas,  tendo a chance de “conquistar” o público pelo seu charme e elegância, faz parte do desejo de outros tantos milhares de pessoas.

Isso porque, entre outras coisas, elas e todos nós, somos produtos de uma lógica cada vez mais consumista. Aceitamos e validamos o tempo todo esses modos de funcionamento social (por exemplo: na saúde e educação paciente e aluno viraram clientes, enquanto médicos e professores agora precisam “aceitar o que o cliente diz em primeiro lugar”, tantas vezes distribuindo notas que eles não tiraram ou indicando serviços de saúde somente para os que pagam melhor). Assim, se pararmos para pensar, tais crenças de como obter sucesso na vida não fazem parte somente delas.

Com tudo isso, me satisfaz pouco saber que a apresentadora do programa fez uma retratação sobre um dado dito de forma equivocada por uma figura de autoridade sobre o período de amamentação das mulheres. Meu desejo real mesmo seria que as mães do programa educassem seus olhares com crítica, desconfiança dúvida… Do que ouvem, leem e apreendem de qualquer meio de comunicação.

O programa que hoje está em pauta é só mais um, daqui a pouco tem outro… uma novela, um comercial, uma matéria “comprada” – nós, os privilegiados de uma formação escolar mais sólida, a meu ver, temos que incentivar e auxiliá-las a terem comportamentos menos passivos e mais inquietos, para não exporem seus filhos e suas vidas desse modo. Para entender as reais intenções do produto que patrocina o programa, para perceber o quanto podem estar sendo influenciadas a pensarem em marcas e produtos “salvadores” de bebês e de suas possíveis assaduras. Além de questionarem outras orientações passadas pelo programa, já entendidos como futuros consumidores.

Desenvolver um olhar crítico sobre o mundo significa pensar no que pode estar por trás de comportamentos sociais que nós, do lado de cá da TV, nos espantamos.  Como sugere a epígrafe desse texto, “basta” nos perguntar antes de qualquer julgamento: ”o que”, ”por que”, ”quando”, ”como”, ”onde” e ”quem”, cada vez que algo do gênero for veiculado na televisão ou em qualquer outro meio de comunicação.

Fiquemos  com o ensinamento do meu avô, de 94 anos, que não cansa de repetir a cada história que ouve pela primeira vez: “Como é difícil julgar, não sabemos as motivações, as reais intenções, o modo como aquela pessoa entende a vida, foi criada, etc… Antes de qualquer coisa, precisamos conhecer o que pode estar por trás de um determinado comportamento”. 

Sábias palavras que levo comigo na vida, sempre.


[1] I have six honest serving-men (they taught me all I knew), their names are What and Why and When, and How and Where and Who – The Elephant’s Child, Just So Stories.

[2] Paulo Freire, inestimável educador brasileiro, defendeu brilhantemente em seus trabalhos, a ideia de transitividade crítica em oposição a uma consciência considerada ingênua. A consciência crítica se caracteriza pela profundidade na interpretação dos problemas, os compreendendo pela sua responsabilidade social e política. Nas palavras dele “despir-se ao máximo de preconceitos na análise dos problemas e, na sua apreensão, esforçar-se para evitar deformações (…) Por negar a transferência de responsabilidade. Pela recusa a posições quietistas. Por segurança na argumentação. Pela prática do diálogo e não da polêmica.” (Paulo Freire, Educação como prática da liberdade. 30ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 2007, p.69-70).

  • Roberta Medeiros

    Acho que este sempre foi o maior desafio dos professores: estar ao lado de cada aluno no caminhar pela construção do saber. Quando penso nas escolas que tive, lembro que apenas alguns professores estiveram ao meu lado nesse caminhar, incentivando-me e convocando-me a pensar…a maioria, no entanto, transmitiu o conhecimento. E como é difícil mudar isto; mudar na gente mesmo…quando estou em sala de aula, muitas vezes, me vejo repetindo isto (eu sei; vc – aluno, aprende!). São idas e vindas de viagem (já que a gente vive na estrada, né?!) pensando em formas de romper com este modo de fazer; estamos impregnados dele!!
    Outro dia, na Brinquedoteca, resolvemos fazer uma decoração de natal. Levei vários desenhos do tema e propus às crianças que os pintasse, para que pudéssemos pregá-los pela Faculdade. Enquanto as crianças coloriam, os estagiários e eu íamos recortando os desenhos, fazendo “bolinhas” de fita crepe e conversando pra valer. Depois de muitos coloridos, um garoto virou-se para mim e perguntou: “professora (ele vê os estagiários me chamando de professora e me chama assim também), meu papai noel não ficou bonito. Eu não pintei a barba de branco nem ele de vermelho; fiz colorido; tá certo?” Dei-lhe um grande sorriso, e respondi: “cada um de nós é único e tem um papai noel especial! Se você gosta de um papai noel colorido, então, ele será colorido!” É raro ver um sorriso tão radiante como o que recebi.
    Quando terminamos nossas atividades, esse foi o grande assunto de nossa supervisão.
    Para mim, o maior desafio é ir nos fazendo críticos, cotidianamente.
    Abs,
    Roberta

    • http://ouvindocriancas.com.br Paula Saretta

      Roberta, que lindo seu relato! Muito obrigada por ter feito isso! Você é uma professora que faz a diferença! Parabéns! O maior desafio para mim também é esse: formar alunos críticos e conscientes de suas ações e responsabilidades como pessoas e profissionais. um grande beijo